Hospital São José convive com superlotação e falta de materiais: “temos que liberar macas dos mortos para os vivos”
Precarização e denúncias de irregularidades marcam a rotina do maior hospital de Joinville.
Foto Divulgação
O Hospital São José passa por superlotação constante e, desde o último final de semana, registrou um aumento exponencial, segundo um servidor que não quis se identificar.
De acordo com o depoimento, o hospital vem enfrentando falta de itens básicos para o atendimento à população, como camas, macas e até cadeiras de plástico, a ponto de funcionários terem que ir ao necrotério empilhar corpos de pessoas falecidas para liberar macas para os pacientes.
Em alguns casos, ambulâncias que chegam com pacientes ao hospital precisam aguardar horas com o paciente dentro do veículo até liberar uma maca para entrada no hospital.
Ainda segundo o servidor, a superlotação relatada ocorre porque o São José recebe pacientes que não conseguem atendimento adequado nas UPAs ou não conseguem realizar determinados exames de imagem, como tomografia. O mesmo ocorre com pacientes de outros hospitais, como o Bethesda, que optam por ir diretamente ao São José ou são transferidos.
Ainda conforme o relato, os funcionários estão acostumados a trabalhar com um número de pacientes acima do estipulado. Um setor com 25 leitos geralmente atende 40, mas nos últimos dias chega a ter entre 80 e 100.
O Chuville procurou o Conselho Regional de Enfermagem (Coren) para relatar os casos e foi informado que as informações seriam repassadas à coordenação de fiscalização. O espaço segue aberto para atualizações.
Já a prefeitura informou que o São José atende cerca de 1 milhão de habitantes e, mesmo diante desse cenário, todos são atendidos normalmente. Disse ainda que adota medidas para agilizar o fluxo de atendimentos, como a avaliação dos pacientes em condições de alta e a priorização de exames, e que no caso do uso de macas, os equipamentos são compartilhados entre setores e utilizados conforme a demanda.
Denúncias e precarização
O Chuville denunciou durante o ano vários descasos e situações de precarização no Hospital São José, além de irregularidades envolvendo contratos.
Servidores relataram a má qualidade da comida servida por uma empresa terceirizada envolvida em escândalos no Pará. Posteriormente, a empresa Inova Alimentos LTDA, responsável pelo fornecimento de refeições no Hospital Municipal São José, informou à Prefeitura de Joinville que iria paralisar suas atividades, descumprindo o contrato.
A empresa foi substituída por funcionários do hospital em um primeiro momento. A prefeitura abriu licitação para uma nova contratação e entrou na Justiça contra a antiga terceirizada.
Em setembro, o Tribunal de Contas da União e o Ministério Público Federal foram acionados por conta de duas denúncias envolvendo contratos da Prefeitura de Joinville para a prestação de serviços de saúde de alta complexidade, como oncologia e hemodiálise.
As denúncias apontam alta probabilidade de cobrança em duplicidade e um possível dano ao erário, além do encaminhamento da maioria dos pacientes para a clínica credenciada, o que geraria a subutilização da estrutura, dos equipamentos e das equipes públicas já financiadas, contrariando o princípio da eficiência e da economicidade.
Em outubro, o governo de Santa Catarina e a Prefeitura de Joinville anunciaram a criação de um grupo de trabalho para avaliar a viabilidade da estadualização do Hospital Municipal São José. A proposta prevê que equipes técnicas do Estado e do município elaborem um estudo detalhado sobre a possível transferência da gestão do hospital para o governo estadual, algo questionado pela sociedade civil, pelo sindicato (Sinsej) e por demais organizações.

Fagner Ramos
Formado em Jornalismo pelo Ielusc (2025). Vencedor do Prêmio Celesc de Jornalismo (2025).










