Casas-Estufa: O paradoxo da construção brasileira frente à crise climática
Entramos oficialmente no verão, no último domingo (21). Nesta reportagem especial, o Chuville Notícias traz uma análise entre os projetos de construção civil adotados nos últimos anos frente ao aumento da temperatura global. Estamos no caminho certo?
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A paisagem urbana brasileira contemporânea atravessa uma metamorfose silenciosa. À medida que as temperaturas globais aumentam, impulsionadas por uma crise climática sem precedentes, as cidades do país transformam-se em laboratórios de um experimento arquitetônico perigoso. O que se observa, através de uma análise técnica e jornalística aprofundada, é que as residências modernas deixaram de ser abrigos para se tornarem armadilhas térmicas.
Este fenômeno é central na análise de Felipe Bone, arquiteto e um dos fundadores da UGREEN, uma organização que se tornou referência na discussão sobre sustentabilidade e eficiência energética na construção civil. Bone argumenta que o desconforto sentido por milhões de brasileiros dentro de suas próprias casas não é apenas uma fatalidade meteorológica, mas o resultado direto de uma lógica construtiva que prioriza o lucro imediato em detrimento da física elementar do conforto humano.
A pesquisa revela que a transição de métodos construtivos tradicionais para modelos industrializados de baixa performance criou um cenário de vulnerabilidade sistêmica. Enquanto no passado a arquitetura brasileira se valia de estratégias para lidar com o calor, a produção habitacional atual — do programa de interesse social aos condomínios de luxo — parece ter ignorado as lições do clima tropical. O resultado é um ciclo vicioso de dependência energética e degradação ambiental que ameaça a estabilidade econômica das famílias e a saúde pública nacional.
A crítica à arquitetura de mercadoria
No centro deste debate está Felipe Bone, cuja trajetória na UGREEN tem sido marcada pela denúncia de que as casas brasileiras contemporâneas funcionam como "estufas antropogênicas". Segundo Bone, a arquitetura nacional sofreu um processo de descaracterização profunda nas últimas décadas. A habitação, que deveria cumprir a função primordial de proteção e equilíbrio térmico, foi reduzida a uma commodity financeira. Nesta lógica, o sucesso de um empreendimento é medido pela velocidade de execução e pela redução drástica do custo por metro quadrado, ignorando-se o custo operacional que o morador terá de arcar ao longo de décadas para tornar o ambiente habitável.
Bone destaca que essa "crise de identidade climática" é alimentada pela importação acrítica de modelos estéticos de países de clima temperado. Edifícios com fachadas inteiramente envidraçadas e ausência de elementos de sombreamento, que fazem sentido em latitudes onde a retenção de calor é desejável, tornaram-se símbolos de status no Brasil. No entanto, em um contexto de radiação solar intensa, essas estruturas transformam-se em captadores solares gigantescos, exigindo sistemas de climatização massivos para serem minimamente funcionais.
A física das "Paredes Magras" e a perda da massa térmica
A análise técnica do sistema construtivo no Brasil revela uma falha estrutural na gestão do calor. Felipe Bone aponta para o desaparecimento da massa térmica nas construções modernas. Historicamente, as paredes espessas das casas coloniais e vernáculas funcionavam como baterias térmicas. Elas levavam o dia inteiro para absorver o calor solar e só começavam a liberá-lo para o interior quando a temperatura externa já havia caído, permitindo que a ventilação noturna fizesse o resfriamento natural.
Porém a busca incessante pela economia de espaço e material resultou na hegemonia das "paredes magras". Com espessuras que variam entre 9 e 15 centímetros, estas estruturas possuem uma inércia térmica insignificante. O calor solar atravessa a parede em poucas horas, atingindo o interior da residência ainda no meio da tarde, quando a temperatura externa está em seu ápice. Esse processo cria o efeito estufa: o calor entra facilmente, mas as janelas pequenas e a falta de circulação de ar impedem que ele saia, acumulando-se ao longo das horas.
O impacto é ainda mais severo em habitações de interesse social. Para cumprir metas orçamentárias rígidas, utiliza-se frequentemente telhas de fibrocimento de 4 a 6 mm de espessura. Sem a proteção de um forro adequado ou isolamento térmico, essas telhas agem como radiadores infravermelhos. Sob o sol de meio-dia, a temperatura superficial dessas telhas pode ultrapassar 60°C, irradiando calor diretamente para o espaço de vida dos moradores e transformando o teto em uma fonte constante de desconforto.
O ciclo vicioso do ar-condicionado e o aquecimento urbano
A falha na arquitetura passiva gerou uma explosão na demanda por soluções mecânicas. O uso do ar-condicionado no Brasil deixou de ser um item de luxo para se tornar uma necessidade de sobrevivência habitacional. No entanto, conforme explica Felipe Bone, o ar-condicionado é uma solução individual que intensifica um problema coletivo. O princípio de funcionamento do aparelho é a transferência de calor: ele resfria o interior de um ambiente ao custo de expulsar o calor e a energia do compressor para o exterior.
Em centros urbanos densos, onde milhares de aparelhos operam simultaneamente, as ruas tornam-se corredores de ar quente. Este calor adicional eleva a temperatura do microclima urbano, o que, por sua vez, força os vizinhos a ligarem seus próprios aparelhos para combater o calor externo amplificado. Estabelece-se, assim, um ciclo vicioso de retroalimentação térmica. Este fenômeno é acompanhado por um estresse sem precedentes na infraestrutura elétrica nacional.
Dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) mostram que, em fevereiro deste ano, o consumo de energia no Brasil cresceu 4,9%, superando pela primeira vez a marca de 77 mil megawatts (MW) médios, impulsionado majoritariamente pelas ondas de calor e pelo uso intensivo de climatização.
A pressão sobre a rede elétrica não é apenas uma questão técnica; ela tem implicações econômicas diretas para toda a população. Para suprir os picos de demanda gerados pelo uso simultâneo de milhões de aparelhos de ar-condicionado, o Sistema Interligado Nacional (SIN) é obrigado a acionar usinas termelétricas, cujo custo de geração é significativamente superior ao das fontes hidrelétricas ou renováveis. Este custo extra é repassado aos consumidores através das bandeiras tarifárias, criando um cenário onde o conforto térmico de alguns é subsidiado pela conta de luz mais cara de todos, inclusive daqueles que não possuem aparelhos de climatização.
A crise climática e o fenômeno das ilhas de calor urbanas
O aquecimento das habitações não ocorre no vácuo; ele é potencializado pelas mudanças climáticas globais e pela morfologia das cidades brasileiras. A temperatura média do planeta já subiu cerca de 1,1°C desde a Revolução Industrial, mas o efeito local nas cidades é muito mais drástico devido ao fenômeno das Ilhas de Calor Urbanas (ICU). A substituição da vegetação por asfalto e concreto cria zonas onde a temperatura pode ser até 10°C superior à das áreas rurais circundantes.
Esse "abafamento" urbano é uma característica marcante da expansão periférica desordenada, onde a vegetação é removida para dar lugar a lotes mínimos cobertos por construções de baixa qualidade térmica.
A desigualdade socioambiental é um dos subprodutos mais cruéis desse processo. Enquanto bairros ricos concentram áreas verdes, parques e infraestrutura de resfriamento natural, a população mais pobre vive em áreas "aridificadas", onde o calor é amplificado pela falta de árvores e pela alta densidade de materiais absorventes de radiação. Essa disparidade cria o conceito de "pobreza de resfriamento", onde as famílias têm o equipamento (frequentemente ventiladores ou condicionadores de ar antigos e ineficientes), mas não têm condições financeiras de pagar a conta de luz necessária para operá-los em níveis seguros de conforto.

Impactos na saúde e na economia das famílias
O calor excessivo dentro das casas não é apenas uma questão de conforto; é uma ameaça real à saúde pública. Felipe Bone e outros especialistas alertam que a exposição contínua a temperaturas elevadas afeta o sistema cardiovascular, a qualidade do sono e a saúde mental.
Além dos danos físicos, há um custo econômico invisível mas devastador. A produtividade dos trabalhadores brasileiros cai significativamente sob calor extremo. Relatórios indicam que para cada grau acima dos 20°C, a produtividade pode sofrer uma redução de 2% a 3%. Em termos macroeconômicos, projeta-se que o estresse térmico possa gerar perdas diárias de até 353 milhões de dólares para a economia brasileira em cenários de alta emissão de gases de efeito estufa. No nível familiar, o calor consome o patrimônio: seja através do aumento da conta de luz, seja pela perda de renda devido à fadiga ou por despesas médicas evitáveis se a habitação fosse adequadamente projetada.
O corpo humano, sob estresse térmico constante, tem dificuldade em regular sua temperatura interna, o que pode levar a episódios de exaustão, desidratação e agravamento de doenças crônicas como a hipertensão, que atinge 27,9% da população brasileira.
A alternativa sustentável: Wood Frame e Construção Industrializada
Para romper com este paradigma de ineficiência, a pesquisa de Felipe Bone aponta para a necessidade de adotar sistemas construtivos que integrem o isolamento térmico como elemento fundamental, e não como opcional. O sistema Wood Frame emerge como uma das soluções mais viáveis e eficientes no contexto brasileiro contemporâneo. Ao contrário da alvenaria convencional, o Wood Frame utiliza painéis de madeira certificada com camadas internas de isolamento térmico e acústico (como lã de rocha ou de vidro).
Essa estrutura permite que a casa mantenha uma temperatura interna estável, independentemente das flutuações extremas do exterior. O desempenho térmico do Wood Frame pode reduzir o consumo de energia para resfriamento em até 30%. Além disso, trata-se de um sistema de construção a seco, que gera 85% menos resíduos de obra e possui uma pegada de carbono negativa, uma vez que a madeira utilizada sequestra CO2 da atmosfera durante seu crescimento.
A implementação de tecnologias como o Wood Frame no Brasil enfrenta barreiras culturais, como o mito da baixa durabilidade da madeira em climas tropicais. No entanto, com a norma técnica ABNT NBR 16936:2023, o setor ganhou o respaldo jurídico e técnico necessário para expandir essa modalidade, que já demonstra resultados práticos em projetos de habitação social e escolas públicas no sul do país.

Leandro Schmitz
Com formação em Jornalismo pelo Ielusc, MBA em Marketing e Comunicação Integrada pela Aupex, já atuou em diversos veículos de comunicação, como Rádio Mais FM (Hoje Nativa FM), Rádio Udesc FM, Jornal Notícias do Dia e Folha Metropolitana. Foi vencedor do Prêmio Jornalismo Unimed 2010, vencedor do Prêmio Celesc de Jornalismo (2025) e finalista do Prêmio Fenabrave Jornalismo (2013). Tem experiência em todas as plataformas: rádio, jornal, internet, vídeo. No setor público já atuou na gestão de comunicação de pastas e assessoria na Câmara de Vereadores. Hoje também é servidor público concursado do município.










