Uma conversa com Miles Baca para abrir a temporada com música boa
Pierre Porto abre a temporada da coluna de cultura no Chuville, com uma entrevista sobre a música autoral de Miles Baca.
Miles Baca, cantautor catarinense na cena de Joinville
Escolhi um trabalho que gosto muito para essa primeira coluna do ano, fui, naturalmente, para a música e convidei o Miles para uma boa conversa, até mesmo, porque ele acaba de lançar música nova: “Nuvens Carregadas”, ainda nesse dezembro recente.
O Miles Baca é daqueles artistas, e muito especialmente, daquelas pessoas, que encantam pela sensibilidade ao tratar com a arte e com as outras pessoas.
Outro dia, por exemplo, tinha um vídeo nos stories dele, com ele cantando para um grupo de senhoras de mais idade, num ambiente de tanta alegria e afeto, que dava até vontade de estar lá com eles.
Eu conheci o Miles numa entrevista que fiz com a banda Os Bacamartes, no lançamento do segundo EP, em 2012, quando apresentava um programa sobre a produção artística e autoral da cidade, na rádio Joinville Cultural FM, e ele já chegou nos estúdios com bom humor e gentileza.
Depois, vi uma ou outra apresentação deles e acompanhei o trabalho pela web com atenção. O Miles faz música com profundidade, com letras curiosas, composições e vocais melodiosos. É um folk, pop, também na trilha da música brasileira.
Ele chegou em Joinville aos 19. Veio do interior do estado, montou Os Bacamartes e morou, principalmente, no Santo Antônio e no Glória. Hoje, vive no Anita.
O Miles conta que é servidor público, que trabalhou no comércio, e diz, com certo carinho, que: “a minha sorte muito grande no primeiro emprego em Joinville foi ter trabalhado na Livraria Midas, um centro cultural onde, rapidamente, conheci as principais figuras que agitavam culturalmente a cidade”.
Pierre - Fala um pouco dos teus primeiros momentos com a música.
Miles - A primeira apresentação ao vivo foi aos 16 anos, cantando Lady Madonna, dos Beatles, num evento no colégio, do terceiro ano. Na minha cabeça tinha saído tudo errado, mas no dia seguinte, várias pessoas, inclusive os malvadões da escola, que nem olhavam na minha cara trocando ideia e dizendo que foi legal. Então, achei que era pra continuar. Foram quatro motivos que me fizeram pegar a guitarra do meu irmão emprestada e tentar algo com ela. São eles: John, Paul, George e Ringo. Beatles, simples assim.
Nos primórdios da Internet, descobri muitas bandas brasileiras independentes, que lançavam seus trabalhos em mp3, e as letras ou estéticas faziam muito sentido pra mim. A música, que antes era algo distante na perfeição dos Beatles, passava a ser algo contemporâneo, que estava acontecendo muito perto, com bandas de Curitiba e Joinville.
Pierre – E as primeiras canções?
Miles - Eu escrevi minhas duas primeiras canções aos 16 e comecei e como meus colegas andavam preocupados com outras prioridades, comecei cogitar me preparar pra sair da minha cidade.
Já, em Joinville, montei Os Bacamartes. No primeiro show, tocamos covers dos anos 60 e uma música autoral. No segundo show, foram três autorais. Lançamos um EP naquele mesmo ano e outro em 2012. Depois de muitas formações, nosso último show foi em 2013 e a última música lançada em 2014.
Em 2019, lanço o clipe de "Laia Azul" como primeiro single apenas como Miles Baca (o Baca foi mantido dos Bacamartes, mesmo, pois muita gente nos chamava assim, abreviadamente). E assim sigo desde então, variando entre apresentações folk com voz , violão e harmônica e formações com banda com diversos amigos músicos.
Pierre - O que te inspira a compor músicas, como começou e como é esse processo de criação?
Miles - Pra mim, essa resposta vai mudando conforme cada fase que estou. Mas a resposta mais verdadeira é que tento sempre fazer coisas diferentes. Se, eu, minimamente, achar que estou fazendo uma música parecida com o que eu já fiz, eu paro logo e vou fazer qualquer outra coisa.
No início da banda, eram temas juvenis, como: "Maçã do Amor", que é toda ambientada num parque, total clima de anos 60. Depois, quando trabalhava num shopping e notava que deixava o melhor da minha energia na escala desgastante, foi natural sair uma letra sobre correria e falta de sentido.
Pierre – E Laia Azul, que repercutiu bastante nos circuitos mais nichados, ali por 2020?
Miles - Laia Azul foi escrita no primeiro semestre de 2010, gravei em 2019 e foi lançada em 2020. Na sua estrutura, tem uma introdução falada com harmônica e depois três As iguais e o quarto A sendo instrumental com viola caipira e harmônica dialogando.
A letra é uma retrospectiva de insights sobre uma história em que eu precisava correr contra o tempo por conta de uma viagem já prevista. Tem autocrítica dos erros e dinâmicas que repetimos. Nesse sentido, é parecida com "Ainda Sobre Ontem à Noite". No dia e hora que a pessoa estava realizando a tal viagem eu estava em um evento com a banda e tinha uma bateria com a logo "Laia Azul" que era o nome de outra banda que tocou no evento.
Foi uma metáfora que fez muito sentido de coisas subjetivas para mim e virou o título.
Pierre - E essa mais recente? (2025, dezembro)
Miles - Essa música que acabei de lançar: "Nuvens Carregadas", começou a ser feita ao ver uma foto.
Pensando em novos pontos de partida para composição, uma vez ouvi uma canção do Rod Stewart chamada "Every Picture Tells a Story". Fiquei com isso na cabeça e tempos depois, em pleno 2017, quando as pessoas já estavam perdendo totalmente a inibição de assumirem discursos de ódio publicamente, vi no próprio Instagram uma foto que era quase a composição inteira ali na minha frente: uma colega psicóloga, no mirante de Joinville, e na paisagem, três elementos: uma parte da cidade, uma parte da natureza com a mata fechada e acima o céu com nuvens super carregadas, que imediatamente, me lembraram Bob Dylan em "A Hard Rain's A-Gonna Fall".
Fui fazendo várias associações, que a profissão de psicólogo todo dia enfrenta nuvens carregadas, fiquei pensando nas qualidades que eles precisam ter e fui detalhando na letra.
Com o passar do tempo fui pensando nas demais profissões que também operam por meio dessas qualidades. O final da letra aponta para o céu (no sentido de espaço) que, não importa o tamanho da tempestade que apareça, nada consegue afetar ele. As nuvens de confusões são temporárias. Elas sempre se dissolvem.
Pierre – E para esse começo e ano, o que temos?
Miles - Para o primeiro trimestre, está previsto o lançamento de "Utpala Smile", uma bossa oriental, com letra em inglês, algo que nunca fiz. O instrumental está bem adiantado de gravação e só faltam as vozes. Digo no plural pois não cantarei sozinho, vem surpresa por aí! Para o segundo semestre, está programado o lançamento de "Cinco" que escrevi junto com o Allan da banda Peso Leve.
Pierre - ... (falando em clichê) sobre “referências”:
Miles - Vou dividir em três categorias minhas referências: - Beatles e Los Hermanos, por formatarem meu HD pop na adolescência. - Os 5 grandes brasileiros. Não tem como fugir. - Novidades contemporâneas (Hélio Flanders - Vanguart e Tim Bernardes)
Pierre - Como você pode descrever seu estilo musical, tipo: “caixinha”?
Miles - Eu acho que entro na caixinha do Cantautor Folk, principalmente.
Pierre - Você usa violão e gaita de boca ao mesmo tempo, poderia falar um pouco sobre isso?
Miles - Eu não posso dizer que toco o instrumento harmônica (gaita de boca). Eu apenas aprendi o suficiente para incluir em algumas das minhas músicas. Gostaria de dominar ele e também gostaria que mais pessoas usassem.
Mas, sim, quando o show é sozinho ou quando é uma formação que precisa, toco violão e harmônica ao mesmo tempo.
Pierre - O que você busca com a música?
Miles - Busco comunicação. O trampo todo vale a pena quando alguém escuta de verdade, dá sua leitura e a troca acontece.
Pierre - Como você gostaria que fosse esse ano, musicalmente falando na sua carreira e pra todo mundo?
Miles - E pra todo mundo, comunicação também. Que as pessoas estejam desaceleradas o suficiente pra ouvir com tempo o que os músicos, cineastas, artistas estão fazendo.
Se todo mundo botar um pezinho no freio, vai poder aproveitar melhor o que está sendo ofertado.
Miles, obrigado!
Leitoras, leitores, obrigado!
Fica a sugestão para ouvirmos + a música autoral de Joinville.
Tem muita música boa!
Vocês vão adorar!
Onde ver + sobre o Miles Baca na web:
Canal Miles Baca no YouTube com alguns clipes.
Instagram: @milesbaca
Ouça no Spotify:
Repertório com Os Bacamartes
2009 - EP (4 músicas)
2012 - EP (3 músicas)
2014 - Single "A Tua Resposta"
Participações
2012 - "Um Barato" (Coletivo Indisciplina)
2014 - "As Grandes Navegações" (com Ju Malinverni)
Miles Baca – Singles
2019 - "Laia Azul"
2020 - "Ainda Sobre Ontem à Noite"
2024 - "as canções pequenas"
2025 - "Nuvens Carregadas"

Pierre Porto
Pierre é produtor cultural, profissional de marketing de conteúdo, editor de Cultura e professor com formação em Letras. Foi um dos primeiros produtores de conteúdo de cultura de Joinville, com a criação de blogs. Foi colunista de Cultura do jornal Notícias do Dia, Conselheiro Municipal de Cultura e é coeditor do blog Cidade Cultural. Trabalhou na criação da programação da Rádio Educativa Joinville Cultural (105,1 Mhz) e colaborador na criação e redação do Plano Municipal de Cultura.










