Websérie questiona apagamento da população negra na história de Joinville
Muito além dos cartões-postais europeus: websérie mergulha no Cemitério dos Imigrantes para resgatar o protagonismo negro em Joinville.
Quem visita o Cemitério dos Imigrantes, em Joinville, costuma se impressionar com a imponência dos túmulos de ferro forjado. O local, que recebeu os mortos da elite majoritariamente alemã e protestante entre 1851 e 1913, guarda um contraste marcante: logo na entrada, uma placa exibe os nomes de 14 pessoas negras escravizadas que também foram sepultadas ali.
Esse fato pouco conhecido atraiu a atenção da jornalista Mariana Campos e do fotógrafo Caio Paganotti, idealizadores do projeto Se Nossa Kombi Falasse. Há mais de um ano na estrada registrando histórias de impacto pelo Brasil, o casal convidou o professor e ativista do Movimento Negro Maria Laura, Rhuan Carlos Fernandes, para debater o tema no mais novo episódio da websérie.
O tensionamento da memória local
Rhuan, que pesquisou o Cemitério dos Imigrantes pela Universidade da Região de Joinville (Univille), explica que a existência desses 14 corpos só veio a público em 2009. Desde então, iniciou-se um processo de ressignificação do espaço e da própria identidade da cidade. Para o professor, o monumento expõe as contradições de uma historiografia local que, em parte, ainda nega o uso de mão de obra escravizada na região.
Essa placa deixa evidente que a população negra não apenas esteve aqui, mas trabalhou e foi hiperexplorada. Esse tensionamento é difícil de engolir para uma parcela da sociedade que fantasia uma Joinville cinematográfica, puramente europeia
A estética do centro de Joinville reforça o protagonismo germânico, ocultando outras vivências.
Queríamos entender quais narrativas estavam sendo apagadas pela história dominante. Contar a trajetória de Santa Catarina sem incluir a população negra é contar uma história incompleta
Dados contra o apagamento
Durante o episódio — gravado dentro da Kombi e no próprio cemitério —, Rhuan denuncia o processo de embranquecimento projetado para a Região Sul. Contudo, os dados demográficos e sociais contrastam com a narrativa oficial:
Demografia: Segundo o Censo de 2022 do IBGE, 23,3% da população de Santa Catarina se autodeclara negra.
Violência Racial: O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 apontou Santa Catarina como o estado líder em registros de injúria racial.
Contexto Político: O debate ocorre em um cenário de tensionamento de direitos, logo após o STF derrubar, em abril, uma tentativa da Assembleia Legislativa de SC de proibir cotas raciais em universidades estaduais.
Não se pode dizer que não há população negra em Santa Catarina. Replicar isso contribui para o apagamento dos nossos corpos e das nossas memórias neste território
O Episódio 20 da Expedição BR 101 Histórias, intitulado "Rhuan e o cemitério que dá vida à resistência", estreou no último sábado (30), no YouTube.
Sobre o projeto Se Nossa Kombi Falasse: Ex-coordenadores do Greenpeace Brasil, Mariana Campos e Caio Paganotti vivem na estrada desde janeiro de 2025 a bordo da Kombi Manu, acompanhados pela cachorra Tuki. Após percorrerem a Região Sul documentando realidades locais, o casal agora avança pelo litoral de São Paulo. A jornada é transmitida no YouTube e compartilhada no Instagram, Facebook e TikTok.




