Vítima de atropelamento por condutor de patinete enfrenta descaso da empresa JET
Miriam de Freitas está com o braço imobilizado, sem previsão de cirurgia, vivendo à base de remédios para dor, impossibilitada de realizar atividades básicas para garantir o sustento e enfrentando quadros de depressão. Veja a primeira parte da entrevista com Miriam sobre o ocorrido.
Miriam Freitas terá que ficar de seis a sete meses parada de suas atividades - Foto: Chuville
Após completar um mês do fatídico acidente provocado por um condutor que trafegava na contramão da via pública com um patinete azul da empresa JET, na rua João Colin, no Centro de Joinville, a vítima Miriam Freitas continua aguardando resposta da empresa responsável pelo veículo, do poder público e a identificação da pessoa que cometeu a infração.
O acidente culminou no afastamento das atividades de trabalho de Miriam, que é instrutora de yoga, o que impactou diretamente sua renda financeira e a levou a viver à base de remédios para dor e para controle emocional, passando de uma mulher totalmente independente a depender dos filhos até para necessidades básicas, como tomar banho, entre outros fatores.
Logo após o ocorrido, ao ser amparada pelo seu filho, Ítrio Freitas tomou as primeiras providências, como a abertura de boletim de ocorrência (B.O.) e o acionamento do Ministério Público de Santa Catarina para apurar o caso. O órgão marcou uma reunião com a prefeitura e estabeleceu medidas de segurança a serem implementadas, como revisão das normas de segurança no trânsito, comunicação da empresa com o consumidor e o poder público e a abrangência do contrato de seguro.
Miriam e seu filho Ítrio concederam entrevista à reportagem do Chuville, detalhando como o acidente ocorreu, as consequências que tiveram impactos financeiros e psicológicos e as próximas ações.
Dia do acidente
Miriam relata que havia saído para almoçar perto de sua residência, com planos de iniciar as atividades como terapeuta, pois iria retomar as aulas de yoga em uma escola e, posteriormente, realizaria outro atendimento particular. Após sair do restaurante, ao atravessar a rua, pois o sinal estava fechado, ocorreu o acidente.
“Eu realmente não estava na faixa, pois é tão comum que o sinal fecha. A gente se sente seguro para atravessar, pois o sinal estava fechado. Quando fui colocar o pé na rua, fui atingida pelo patinete. Ele estava na contramão, no lugar do ônibus. Eu acho incrível, porque eu estava um tempinho esperando o sinal dos carros fechar, eu já estava na beirada da calçada e minha camiseta do yoga é cor de abóbora, ela é muito chamativa. Acho incrível que ele não tenha me visto ali, sabe?” contou Miriam.
Você está errada!
A vítima relata que o condutor do patinete estava em alta velocidade, devido à força do impacto, mas, além do acidente, a reação do infrator também a chocou.
“O que mais me afetou, além do acidente em si, porque está sendo muito difícil para mim, foi o olhar daquele rapaz para mim, como se eu estivesse incomodando, sabe? A única coisa que ele soube dizer para mim foi: você tá errada! Ele só respondeu isso, você está errada!”.
Miriam conta que, após essa fala, perguntou se ele prestaria auxílio ou socorro, pois ao cair já havia percebido que algo grave tinha ocorrido. Segundo ela, o cotovelo “explodiu” e sentiu o antebraço se deslocar. Diante dessa situação, da omissão do condutor e da ausência de ajuda de comerciantes e pessoas que ouviram seus gritos, ainda assim ela foi embora sozinha para casa, “segurando” o braço.
Ao chegar em sua residência, seu filho a levou ao médico, onde foi constatada fratura exposta, considerada, segundo o profissional, o pior grau dentro da classificação cirúrgica. O osso foi estilhaçado em pequenas partes, impossíveis de recuperar ou refazer, com um prazo estimado de recuperação entre seis e sete meses.
“A gente espera que haja um milagre, que eu possa voltar a ter o meu braço, poder exercer minha profissão que eu tanto amo, que eu tanto gosto, porque estou completamente parada”, afirma Miriam.
Provas, imagens e descasos
Após prestar os primeiros socorros à mãe, Ítrio Freitas contou que, no mesmo dia, buscou imagens com comerciantes próximos ao local do acidente para dar andamento ao caso junto à Justiça, iniciando com o registro do boletim de ocorrência.
Segundo seu relato, diversas tentativas de contato foram feitas com a JET, porém a empresa não dispõe de atendimento telefônico, apenas chatbots ou e-mail, o que dificulta uma interface rápida e a identificação da pessoa que conduzia o patinete.
“Isso deixa muito a desejar em situações emergenciais, em que a pessoa precisa de apoio, amparo ou prestar atendimento a um terceiro. É um equipamento que ocupa espaço público, sobre calçadas, muitas vezes em áreas destinadas a pessoas com deficiência, o que gera transtornos e impede a circulação”, afirma Freitas.
Outro ponto que chama atenção é o seguro disponibilizado pela JET para casos de acidentes. Freitas relata que, após muito esforço, obteve retorno da empresa solicitando que entrasse em contato com a seguradora.
Por lei, o acionamento do seguro contra terceiros, cobertura de danos a terceiros ou RCF-V, deve ser feito preferencialmente pelo segurado, ou seja, o causador do acidente. Caso o causador se recuse a acionar o seguro, o terceiro envolvido pode entrar em contato diretamente com a seguradora, apresentando o boletim de ocorrência e os dados do condutor. A decisão é da 3ª Turma do STJ, ao julgar recurso em que uma seguradora alegava a impossibilidade de cobrança direta por terceiros em acidentes de veículos.
Em seu contato com a Infinite Seguradora, indicada pela JET, a resposta veio por e-mail, informando lamentar o ocorrido, mas que sua apólice cobriria apenas acidentes pessoais envolvendo usuários dos patinetes, recomendando que a vítima entrasse em contato com a seguradora Kovr, inclusive fornecendo um contato direto da empresa.
A reportagem do Chuville entrou em contato com a Kovr, que inicialmente desconhecia o caso e não confirmou se atuava como seguradora de terceiros da JET. A seguradora alegou não poder compartilhar informações específicas sobre apólices, segurados ou coberturas com terceiros e orientou que as informações fossem solicitadas à Epic Corretora.
A Epic, por sua vez, confirmou que a Kovr é uma das atuais parceiras contratadas pela JET dentro do programa de seguros do grupo, mas não é responsável por prestar nenhum tipo de suporte a terceiros envolvidos em acidentes. O compromisso dela é diretamente com a empresa de patinete, contratante deste seguro.
Em determinado momento, Ítrio relata que a empresa de patinete afirmou, por e-mail, não estar preparada para atender situações emergenciais como o acidente sofrido por sua mãe e orientou a busca por serviços públicos, como o Samu e o Corpo de Bombeiros.
O Chuville Notícias também entrou em contato com a JET, que inicialmente informou que o representante de Joinville daria retorno, o que não ocorreu. Também foram questionados os planos de melhoria para o aluguel e a segurança dos patinetes, porém, mais uma vez, não houve resposta.
A família de Miriam acionou um advogado para as devidas medidas legais. Até a publicação da reportagem, a vítima não obteve informações concretas sobre o plano de cirurgia e recuperação e segue enfrentando quadros de depressão, necessitando acompanhamento especializado.

Fagner Ramos
Formado em Jornalismo pelo Ielusc (2025). Vencedor do Prêmio Celesc de Jornalismo (2025).













