Saúde em risco: o que o tempo diante das telas causa nas crianças
Qual o correto uso de telas em um tempo onde tudo acontece através de um celular ou computador? Onde isso afeta a saúde de todos, sobretudo de crianças? Acompanhe na reportagem especial de Ian Lucca para o Chuville Notícias.
O ano é 2026. Computadores e celulares fazem parte da rotina da maioria da população e ocupam espaço central no dia a dia. Para os adultos, a tecnologia é utilizada para praticamente tudo: tirar dúvidas, aprender algo novo, acessar informações, trabalhar e se comunicar. No entanto, esse uso constante também traz consequências para a saúde física e mental.
Segundo dados do DataReportal, em 2024 o Brasil contava com 187,9 milhões de usuários de internet, o que representava cerca de 86,6% da população. Estudos apontam ainda que os brasileiros permanecem acordados, em média, 16 horas por dia, sendo que aproximadamente metade desse tempo é dedicada ao uso de algum tipo de tela, como televisão, celulares, computadores e tablets.
O uso prolongado desses dispositivos está associado a diversos prejuízos à saúde física e mental. Um estudo publicado pela revista PLOS Global Public Health em 2024 aponta que o vício em telas pode ser comparado à dependência de álcool, drogas ou jogos de apostas. A pesquisa relaciona o uso excessivo a casos de depressão, ansiedade, autolesões e ideação suicida.
Mesmo com o cérebro adulto já desenvolvido, especialistas indicam que ele continua sendo moldado pelos estímulos constantes das telas. Termos como brainrot, que se refere ao consumo excessivo de conteúdos de baixo esforço cognitivo, e burnout digital, relacionado ao cansaço mental causado pelo excesso de conexões, têm ganhado espaço nos debates entre profissionais da área.
Estudos revelam: excesso é prejudicial
Diante desse cenário, surgem questionamentos sobre os impactos das telas em crianças e adolescentes, cujas mentes ainda estão em processo de desenvolvimento. De acordo com estudo do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC), o uso indiscriminado e não supervisionado de telas pode gerar impactos negativos no desenvolvimento neurobiológico, cognitivo e comportamental, além de prejuízos à vida escolar. Entre os efeitos apontados estão isolamento social, sintomas depressivos e queda no rendimento acadêmico.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Pediatria recomendam que crianças de 0 a 2 anos não tenham qualquer exposição a telas. Para crianças de 2 a 5 anos, o tempo recomendado é de até uma hora por dia, enquanto para a faixa etária de 6 a 10 anos o limite é de até duas horas diárias. Em todos os casos, o uso deve ser supervisionado por um adulto e evitado em momentos importantes, como durante as refeições ou antes de dormir.
O telefone celular é o principal meio de acesso à internet entre crianças e adolescentes de diferentes classes sociais, seguido por televisão, computadores e tablets. É comum que pais e responsáveis permitam o uso das telas como forma de entreter os filhos enquanto realizam tarefas domésticas ou buscam um momento de descanso.
Sabrina, de 32 anos, mãe de Lucas, de 14, relata os desafios do controle parental no ambiente digital:
Lidar com o controle de um adolescente não é fácil. Eles querem mais privacidade, e você acaba se tornando ‘a chata’ por muito pouco.
Segundo ela, inicialmente o filho utilizava uma conta compartilhada, o que facilitava o monitoramento de conteúdo. Atualmente, Lucas possui uma conta própria vinculada a um grupo familiar, com uso de ferramentas de controle parental.
Excesso de telas nas crianças
Estudos publicados pela SciELO Brasil reforçam que a infância é marcada por transformações psicossociais e biológicas fundamentais para o desenvolvimento motor, afetivo, social e cognitivo. A pesquisa aponta ainda que os primeiros 24 meses de vida representam um período crucial para o desenvolvimento do sistema nervoso central, favorecendo a aprendizagem.
O tempo excessivo diante das telas é considerado um fator de risco para o comportamento sedentário e para doenças cardiovasculares e metabólicas na vida adulta. Em crianças, pode contribuir para obesidade, aumento da pressão arterial, problemas de saúde mental, redução das interações sociais e familiares, além da exposição a conteúdos inadequados. Alguns estudos também associam a alta exposição a atrasos no desenvolvimento da linguagem e da coordenação motora fina.
A pediatra Roberta Tanabe, em depoimento publicado no site da Fiocruz no texto “O uso das telas e o desenvolvimento infantil”, destaca que durante a pandemia da Covid-19 o uso de telas se intensificou. Segundo ela, o isolamento social fez com que dispositivos eletrônicos fossem utilizados como recurso para entreter crianças enquanto os pais lidavam com demandas profissionais e domésticas, muitas vezes funcionando como uma distração passiva.
Com isso, a internet, o celular e a televisão passaram a assumir o papel de “babás digitais” em alguns lares brasileiros. Em busca de tempo para realizar tarefas cotidianas ou simplesmente descansar, muitos pais recorrem às telas como solução imediata.
A educadora Luana, de 30 anos, defende o equilíbrio entre o uso de telas e atividades ao ar livre. Para ela, a tecnologia pode fazer parte da rotina, desde que o brincar e as interações sejam priorizados.
As telas podem ser um momento de relaxamento, mas a brincadeira precisa vir primeiro.
Especialistas reforçam que o cuidado com a saúde mental começa nos primeiros anos de vida. Incentivar atividades físicas, interações sociais, alimentação adequada e conteúdos infantis de baixa estimulação são algumas das recomendações de pediatras e psicólogos para promover um desenvolvimento saudável em um mundo cada vez mais conectado.

Dúvidas: deolhonamente@gmail.com






