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REDE MPJ: Rapper catarinense se torna primeiro indígena a se formar em Jornalismo na UFSC

Fernando Xokleng transforma TCC em registro histórico da luta contra o Marco Temporal e reforça a presença indígena na comunicação e na cultura Hip Hop. Reportagem do portal Barraco Rap, integrante da Rede Mais pelo Jornalismo (MPJ)

Atualizado em 20/03/2026 às 17:03, por Redação.

Fernando Almeida e o filho nos braços. Orgulho da família. Foto: reprodução/Prof. Maria Baldessar

Por quase cinco décadas, o curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) formou centenas de profissionais reconhecidos nacionalmente. Criado em 8 de março de 1979, o curso consolidou-se como referência acadêmica. Recentemente, foi classificado como o melhor do Brasil entre os cursos de Comunicação no Ranking Universitário Folha (RUF 2025), avaliação que analisa mais de 2.200 instituições de ensino
superior. Agora, em meio a esse histórico de excelência, uma conquista inédita marca a trajetória do curso: o estudante Fernando de Almeida tornou  -se o primeiro indígena a concluir a graduação em Jornalismo na UFSC em seus 47 anos de existência.

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A formatura de Fernando não representa apenas um feito individual. Trata-se de um marco simbólico e político para o ensino superior brasileiro, especialmente em um dos cursos mais prestigiados do país. “Eu lamento que seja só agora” - Indígena da etnia Laklãnõ/Xokleng, Fernando defendeu, no final de 2025, o Trabalho de Conclusão de Curso intitulado “Resistência Laklãnõ/Xokleng: Nosso marco é ancestral”, um livro de fotorreportagem que documenta a luta de seu povo contra o chamado Marco Temporal.

Mais do que um trabalho acadêmico, o projeto nasce de uma vivência direta. Em 2021, ele acompanhou por 15 dias a mobilização indígena em Brasília, durante o Levante pela Terra, registrando imagens e experiências que agora compõem a obra. Em entrevista, Fernando destaca o significado da conquista: “É uma emoção muito grande. Um evento muito importante ter esse protagonismo, abrindo portas para mais jovens. Eu lamento que seja só agora, o primeiro indígena a se formar em jornalismo, mas que essa conquista sirva de inspiração para novas gerações ocuparem esse espaço que é nosso por direito.”
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Jornalismo como ferramenta de visibilidade

Desde o início da graduação, Fernando tinha um objetivo claro: usar a comunicação como instrumento de visibilidade para os povos indígenas. Essa motivação orientou tanto sua trajetória acadêmica quanto sua produção cultural. Além do jornalismo, ele também atua como rapper, cantor e compositor, sendo autor da música Resistência, que narra a mobilização indígena em Brasília e já foi apresentada em diversos estados brasileiros e até fora do país.

Seu trabalho transita entre linguagens, da música ao cinema, mas mantém um eixo comum: contar histórias a partir de dentro. “Eu não sou um jornalista indígena. Sou um jornalista como qualquer outro formado pela UFSC, e tenho o privilégio de ser indígena. Isso não me limita. Tenho
responsabilidade com várias pautas do país.”

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A afirmação revela uma preocupação com rótulos frequentemente atribuídos a profissionais indígenas, que acabam sendo restringidos a determinadas coberturas. Para Fernando, a identidade amplia perspectivas, não restringe possibilidades. Um curso de excelência, um marco necessário. O reconhecimento da UFSC como líder nacional no ensino de Jornalismo reforça o peso simbólico dessa formação. Segundo o RUF 2025, os critérios avaliados incluem qualidade de ensino, avaliação do mercado, desempenho no ENADE, produção acadêmica e dedicação docente.

Para o chefe do Departamento de Jornalismo da universidade, professor Aureo Moraes, o resultado reflete um modelo de formação consolidado ao longo de décadas, voltado à formação crítica, ética e multimídia dos estudantes. Nesse contexto, a presença, ainda recente, de estudantes indígenas evidencia tanto avanços quanto lacunas históricas no acesso ao ensino superior.

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Novos caminhos

Após a formatura, Fernando segue desenvolvendo projetos no audiovisual e na música. Atualmente, trabalha com cinema, inscreveu produções em editais catarinenses e planeja montar um estúdio próprio em sua comunidade. Morando novamente na aldeia, ele projeta o futuro com otimismo: “Tô feliz da vida, com bastante sonhos. Quero continuar com o rap, produzir, falar sobre assuntos importantes. Agora é estruturar melhor isso e seguir.”

Sua trajetória aponta para um movimento maior: a ocupação de espaços historicamente negados, agora ressignificados por novas vozes. Em um curso que há décadas forma alguns dos principais jornalistas do país, a formatura do primeiro indígena não é apenas um dado histórico, é um sinal de transformação em curso.

Acesse o site Barraco Rap aqui e conheça mais sobre os portais da rede nacional Mais pelo Jornalismo, a qual o Chuville Notícias faz parte!


Redação

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