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Produtora audiovisual tem ganho judicial contra Prefeitura de Joinville

Fahya Kury Cassins teve pagamentos de obras audiovisuais retidos pela prefeitura por supostas irregularidades, fato rejeitado pela Vara da Fazenda Pública de Joinville, que determinou a liberação imediata dos recursos.

Atualizado em 08/04/2026 às 13:04, por Fagner Ramos.

Fahya Kury Cassins, Produtora de audiovisual de Joinville

A produtora de audiovisual de Joinville, Fahya Kury Cassins, obteve decisão liminar favorável na 3ª Vara da Fazenda Pública de Joinville na última semana, referente à liberação de verbas retidas de projetos culturais aprovados. São eles: "Contra-Corrente", "Operária" e "11 Dias".

Para a prefeitura, a retenção ocorreu porque a Secretaria de Cultura e Turismo (Secult) argumentou que a produtora tinha pendências financeiras de projetos anteriores e que, segundo o Decreto Municipal 43.329/2021 (art. 45, II), é proibida a transferência de novos recursos a proponentes que tenham prestações de contas reprovadas em projetos anteriores.

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Já a magistrada considerou que, como os débitos anteriores estão com a exigibilidade suspensa judicialmente e os projetos atuais cumpriram as metas técnicas, a remuneração não deve ser retida.

A Justiça ainda reiterou em sua decisão que tais valores possuem natureza alimentar e são essenciais para a sobrevivência da profissional.

O município terá 30 dias para responder à ação, à qual caberá uma réplica da produtora e, posteriormente, sentença definitiva da juíza.
 

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Entenda o caso

Segundo a Secult, os projetos que motivaram as supostas irregularidades administrativas foram: "Territórios no Cinema Brasileiro: A Visibilidade do Lixo", "O Panaca" e "Fim de Tarde", além do polêmico curta-metragem "Gritos do Sul".

Os três primeiros foram julgados irregulares pela Comissão de Análise de Projetos (CAP) e pela Controladoria-Geral do Município (CGM), pois, de acordo com alegação do município, Fahya contratou serviços de uma empresa da qual seu pai era sócio, a Oficina Projetos e Produções Ltda., o que caracteriza o descumprimento do Decreto 30.176/2017, que veda pagamentos a empresas cujo quadro societário seja composto pelo próprio proponente ou parentes de primeiro grau. O município também considerou ilegal o uso de notas fiscais da empresa para comprovar o pagamento de serviços prestados por ela mesma.

O fato é contestado por Fahya, que sustenta não possuir débitos vigentes ou exigíveis, o que já havia sido respaldado por outra decisão judicial, proferida em 2025, que suspendeu a exigibilidade das dívidas relativas aos projetos com contas reprovadas.

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Naquela decisão da Justiça, a juíza reiterou que as notas fiscais descreviam serviços realizados pela própria autora, o que, em análise preliminar, poderia afastar a tese de benefício indevido a parente, além de considerar que não havia indícios de mau uso do dinheiro ou de que os recursos foram usados para fins alheios ao projeto, tratando-se, possivelmente, de equívocos formais.

“Era a única forma, no momento em que executei os projetos, de eu, enquanto proponente, pagar para mim mesma, porque a prefeitura não aceitava nota fiscal de pessoa física e a Secult não sabia como resolver este assunto, fato que ocorre até hoje”, afirma a produtora.
 

Gritos do Sul pode ser a causa para a retenção de pagamentos

Para a produtora audiovisual, sua produção “Gritos do Sul” ainda reverbera negativamente nas esferas políticas e burocráticas do município, sendo um dos fatores para o imbróglio na restrição de pagamento.

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O seu curta-metragem, dirigido em 2023, gerou polêmica por abordar o racismo e a presença de células neonazistas no Sul do Brasil. O filme de terror retrata neonazistas como vilões, o que gerou controvérsia e reações de grupos de direita da cidade e em nível nacional.

A obra enfrentou perseguição de políticos bolsonaristas e ataques nas redes sociais, que alegaram conteúdo indevido, enquanto a produção defende o caráter artístico e político do filme sobre o cenário regional.

O projeto teve apoio do Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura (Simdec) de Joinville, que, naquele momento, garantiu a liberdade de expressão, porém, desde o seu lançamento, gerou debates sobre o uso de verba pública para o tema.

Pressão política e resposta da prefeitura

Políticos influentes da cidade consideraram “Gritos do Sul” uma afronta e um desrespeito à cultura de Joinville e do estado de Santa Catarina e passaram a publicar nas redes sociais conteúdos com ataques à obra e à prefeitura pela liberação da verba.

A prefeitura posteriormente citou supostas irregularidades na prestação de contas do curta, afirmando que foram apresentadas notas fiscais que discriminavam o pagamento à Fahya por três funções diferentes: diretora cinematográfica, produtora executiva e roteirista, enquanto a legislação municipal permite a remuneração por, no máximo, duas atividades.

Este argumento, inclusive, fez a juíza exigir o ressarcimento dos valores relativos a essas atividades, realizado de forma extrajudicial pela produtora. Ela pretende recorrer, mas reafirma que não deve nada ao município que impeça a liberação dos pagamentos das demais obras.

De acordo com Fahya, a Secretaria de Cultura protelou o pagamento até incluir seu nome em dívidas pendentes e ativas com o município, motivado pela polêmica em torno do filme e como resposta aos vereadores que cobraram o Executivo.

“Todo mundo recebeu, eu acompanhei pelo portal de transparência, mas o meu ficou retido. Quando começaram a realizar os pagamentos, eu não estava inscrita em dívida ativa, eu não tinha prestação de contas considerada irregular. Sim, tudo tem a ver, tudo começa com o que aconteceu com o Gritos do Sul”, destaca a produtora.

A reportagem do Chuville questionou a prefeitura sobre a relação com a polêmica, mas não obteve resposta sobre o tema. Ainda em nota, a decisão do processo já é de conhecimento da Secretaria de Cultura, que irá se manifestar no prazo devido.


Fagner Ramos

Formado em Jornalismo pelo Ielusc (2025). Vencedor do Prêmio Celesc de Jornalismo (2025).