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Presença de agrotóxicos na água acende alerta ambiental em SC

Levantamento do Ministério Público aponta resíduos químicos na água de mais da metade dos municípios catarinenses e inclui Joinville, Guaramirin, São Bento, e outras cidades do norte catarinense entre as afetadas.

Atualizado em 20/02/2026 às 16:02, por Redação.

Agricultores jogando agrotóxicos nas plantações

Dos 26 municípios, 11 (42,3%) contêm agrotóxicos nas águas tratadas no norte catarinense. Foto: Observatório do Terceiro Setor

Um estudo sobre a qualidade da água que abastece os 295 municípios de Santa Catarina identificou a presença de resíduos de agrotóxicos em 155 cidades, o equivalente a 52,5 por cento do estado. O levantamento, apresentado ao Grupo de Trabalho da Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, foi solicitado pelo Ministério Público de Santa Catarina e reacende o debate sobre os critérios adotados no Brasil para definir a potabilidade da água.

As análises foram realizadas entre 2018 e 2023 em águas tratadas provenientes de mananciais superficiais e subterrâneos, dentro do Programa Alimento Sem Risco, com recursos do Fundo para Reconstituição de Bens Lesados. Ao todo, foram identificados 42 ingredientes ativos de agrotóxicos, incluindo cinco substâncias proibidas no país, conforme a Anvisa.

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Joinville e cidades do norte catarinense estão entre as afetadas

Joinville aparece no levantamento com a detecção de dois agrotóxicos na água de captação superficial. Foram identificados resíduos de diurom, em concentração de 7,798 microgramas por litro, e de tiametoxam, com 0,181 micrograma por litro. Embora os valores estejam abaixo dos limites legais, o estudo aponta que a presença contínua dessas substâncias indica exposição prolongada da população a resíduos químicos associados à atividade agrícola.

O Diuron (ou Diurom) é um herbicida sistêmico, seletivo, indicado para o controle de plantas daninhas de folhas largas e gramíneas, atuando na pré e pós-emergência precoce. É amplamente utilizado em culturas como cana-de-açúcar, algodão, café, citros e abacaxi. Seu uso é classificado como produto pouco tóxico, mas muito perigoso ao meio ambiente.

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Já o tiametoxam é um inseticida neonicotinoide de segunda geração, sistêmico e de amplo espectro, utilizado para controlar pragas sugadoras e mastigadoras na agricultura (ex: mosca-branca) e pragas urbanas (cupins, formigas).  Estudos ligam o tiametoxam ao colapso de colônias de abelhas, o que levou à proibição do seu uso em certas culturas na União Europeia e restrições no Brasil.

Na mesorregião Norte Catarinense, que inclui as microrregiões de Canoinhas e São Bento do Sul, dos 26 municípios, 11 (42,3%) tinham agrotóxicos nas águas tratadas. 

Guaramirin, cidade próxima a Joinville, aparece na relação com 0,059 de concentração do agrotóxico 2,4-D, que é um dos herbicidas e desfolhantes mais antigos e amplamente disponíveis no mundo, comercializado desde 1945, usado na agricultura para controlar plantas daninhas de folhas largas (dicotiledôneas) em culturas como milho, soja, trigo e pastagens.
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Santa Catarina aparece tomada por agrotóxicos

Além de Joinville, agrotóxicos de uso proibido no Brasil foram identificados em Balneário Camboriú, Rancho Queimado, Imbuia, Canelinha, Itaiópolis, Ituporanga e São João do Sul. No total, 42 resíduos ativos diferentes foram encontrados nas amostras analisadas em municípios distribuídos por todas as regiões do estado.

A distribuição dos municípios com resíduos também varia de forma significativa entre as regiões catarinenses. No Oeste, 63 dos 118 municípios analisados apresentaram ao menos um ingrediente ativo, o que representa 53,4 por cento da região. Na Serra, 10 dos 30 municípios, equivalente a 33,3 por cento.

Na Grande Florianópolis, 12 dos 21 municípios avaliados, ou 57,1 por cento, apresentaram resíduos de agrotóxicos na água. O índice mais elevado foi registrado no Sul do estado, onde 35 dos 46 municípios, ou 76,1 por cento, tiveram detecção de resíduos. No Vale do Itajaí, 24 dos 54 municípios analisados, o equivalente a 44,4 por cento, registraram algum nível de contaminação.

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O Vale do Itajaí aparece entre as regiões mais críticas. Em Imbuia, foram identificados 17 tipos diferentes de resíduos de agrotóxicos, incluindo dois ingredientes ativos proibidos no Brasil desde 2019, mas detectados em amostras de 2022 e 2023. No município também foi encontrado um fungicida em concentração superior a 12 microgramas por litro, patamar considerado elevado por especialistas.

Em Ituporanga, as análises apontaram a presença simultânea de 23 ingredientes ativos de agrotóxicos, sendo que nove apresentaram concentrações superiores a 1 micrograma por litro. No município e em cidades vizinhas, também foram detectados fungicidas banidos no país.

Amostras permanecem dentro dos parâmetros do Ministério da Saúde, mas exposição crônica preocupa

Apesar dos achados, todas as amostras analisadas permanecem dentro dos parâmetros estabelecidos pela Portaria nº 888 de 2021 do Ministério da Saúde. A legislação brasileira, no entanto, avalia cada substância de forma isolada e não considera os efeitos da exposição simultânea a diferentes agrotóxicos, o que limita a avaliação real de risco.

O estudo indica que a contaminação não se restringe à água tratada, mas reflete um cenário mais amplo de poluição ambiental, envolvendo também solo e ar. Técnicos que participaram da análise destacam que a água é a última matriz atingida, após a circulação dos resíduos pelo ambiente.

Do ponto de vista sanitário, a principal preocupação está na exposição crônica. Estudos científicos associam o contato prolongado com agrotóxicos ao aumento do risco de doenças como linfoma não Hodgkin, câncer de estômago, próstata e tireoide, além de alterações neurológicas e endócrinas.

Diante do diagnóstico, o Ministério Público informou que pretende atuar de forma integrada nas áreas da saúde, do meio ambiente e da defesa do consumidor, com foco nas regiões mais afetadas. A instituição também articula, em âmbito nacional, a revisão da Portaria nº 888, sob o argumento de que os parâmetros atuais não refletem os riscos associados à exposição contínua e combinada a resíduos químicos.

O levantamento reforça um paradoxo da política sanitária brasileira. Embora a água distribuída seja considerada própria para consumo pela legislação vigente, ela contém resíduos de agrotóxicos associados a impactos relevantes à saúde humana, o que amplia o debate sobre segurança ambiental e prevenção de riscos, inclusive em centros urbanos como Joinville.


Redação

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