OPINIÃO: O legado de Cabo Verde nesta Copa do Mundo jamais será esquecido
Por Carlos Castro, jornalista
Argentina x Cabo Verde foi muito mais do que um jogo de futebol em uma Copa do Mundo. Foi um espetáculo digno de um dramático e apaixonado tango portenho. Foi a expressão mais pura daquilo que torna o futebol o esporte mais fascinante do planeta. Emoção não tem faltado nesta Copa. Mas esta partida ultrapassou as fronteiras das duas torcidas e transformou-se em um patrimônio afetivo para todos os amantes do futebol.
O primeiro gol da partida foi uma pintura. Um lançamento magistral desde o meio-campo encontrou a genialidade “alienígena” de Lionel Messi, que dominou a bola como se desafiasse as leis da física. Nem o brilhante Vozinha, em mais uma atuação memorável, foi capaz de impedir o golaço.
Mas havia espaço para outra obra de arte. O camisa 13, Lopes Cabral, marcou um daqueles gols que sobrevivem ao tempo. Um chute com efeito, desenhando uma curva perfeita até encontrar o ângulo, exatamente onde a coruja costuma dormir. Um gol simplesmente inesquecível. Espero, sinceramente, que o meu Mengão esteja atento ao talento desse jogador.
A Argentina, campeã da última Copa do Mundo — justamente após outra batalha épica, decidida nos pênaltis contra a França — entrou em campo como Golias. Do outro lado estava um pequeno arquipélago perdido na imensidão do Atlântico, com pouco mais de 530 mil habitantes, tendo o português e o crioulo cabo-verdiano como línguas oficiais. Um país diminuto em território, mas gigantesco em dignidade.
O placar registrou 3 a 2 para os argentinos na prorrogação. A história, porém, anotará algo muito maior. Cabo Verde saiu derrotado apenas no resultado. Em tudo o mais, deixou o campo tão gigante quanto seu adversário.
O futebol guarda dessas ironias que desafiam qualquer lógica. Em 1982, talvez a seleção brasileira mais talentosa desde 1970, dona de um futebol artístico, alegre e encantador, foi eliminada pela pragmática Itália de Paolo Rossi, que acabaria campeã do mundo. Não há lógica no futebol. Talvez seja justamente por isso que esse esporte continue nos fascinando.
Aquela seleção jamais levantou a taça, mas conquistou um lugar eterno na memória dos brasileiros e dos amantes do esporte mundo afora, referenciado inclusive por Guardiola. Zico, Júnior, Leandro, Falcão, Sócrates, Éder, Toninho Cerezo, Oscar, Serginho, Luizinho e Waldir Peres continuam sendo reverenciados não pelo título conquistado, mas pelo futebol que encantou o mundo. Tenho a impressão de que algo semelhante acontecerá com esta geração cabo-verdiana.
O goleiro Vozinha conquistou nossa admiração desde a atuação heroica contra a Espanha e voltou a impressionar diante do Uruguai e da Argentina. Ele foi uma muralha aos 40 anos e mostrou que experiência também pode ser sinônimo de grandeza. Mas talvez a história mais bonita esteja fora das quatro linhas.
Muitos atletas, filhos da diáspora cabo-verdiana espalhada pelo mundo, escolheram voltar para defender as cores do país de seus pais e avós. Não havia contratos milionários capazes de explicar essa decisão. Havia pertencimento, identidade e amor pelo país e pelo esporte. Isso não tem preço. Isso tem VALOR.
Em meio à pompa da FIFA, ao gigantismo comercial que cerca o futebol moderno e aos episódios lamentáveis protagonizados pelo governo Trump durante esta Copa, Cabo Verde nos recordou uma verdade que jamais deveria ser esquecida: a simplicidade, a humildade, a coragem e o amor pela camisa continuam sendo os caminhos mais seguros para devolver humanidade ao esporte.
Nem sempre esses valores conduzem às vitórias. Mas são eles que dão sentido às derrotas. São eles que fazem uma eliminação ser lembrada com orgulho e altivez. São eles que permanecem quando os troféus já estão cobertos pela poeira do tempo.
Cabo Verde foi eliminada da Copa do Mundo, mas deixou, até aqui, o maior legado desta competição. Não sei se o Brasil será campeão. Espero me emocionar vendo Vinícius Júnior conduzir a Seleção diante da Noruega de Haaland e alimentar o sonho do hexa. Ainda convivemos com dúvidas sobre a força do nosso futebol. Mas existe uma certeza que esta Copa já nos entregou.
Antes mesmo de conhecermos seu campeão, Cabo Verde já venceu algo infinitamente mais raro. Conquistou o coração de quem acredita que o futebol ainda pode ser poesia.
Por Carlos Castro, jornalista





