OPINIÃO: O bolsonarismo chafurda na NORMOSE coletiva
Artigo de opinião por Carlos Castro, jornalista.
Numa época de engano universal, dizer a verdade é um ato revolucionário.
Ao terminar a leitura de “Normose – a patologia da normalidade”, do psicólogo Jair Soares, encontrei algumas pistas interessantes para compreender certos comportamentos políticos contemporâneos. Em especial, a forma como parcelas significativas do bolsonarismo parecem operar dentro de uma lógica que mistura normose, dissonância cognitiva, hipnose social e uma incompreensível resistência aos fatos.
Isso não significa que o campo democrático esteja imune a esses fenômenos. Em artigo anterior, escrevi sobre a adolescência mental que contamina parte das relações sociais e políticas em todos os campos ideológicos. Se queremos compreender os impasses brasileiros, é preciso diagnosticar todos os vírus e venenos que circulam na mentalidade do tecido social.
Há muito tempo me pergunto quais mecanismos psíquicos elucidam a capacidade humana de defender aquilo que a prejudica. Ao ler “O Animal Social”, de Elliot Aronson, encontrei em Leon Festinger uma resposta parcial através do conceito de dissonância cognitiva. Já em “Normose”, cheguei a Pierre Bourdieu e ao seu conceito de habitus.
O habitus é um conjunto de disposições, percepções e comportamentos absorvidos pelos indivíduos a partir da convivência em determinado grupo social. Não é consciente. Funciona como uma espécie de gramática invisível que determina o que parece natural, aceitável e até mesmo inevitável. Em outras palavras, é o software coletivo de agrupamentos sociais. E como qualquer software, pode carregar bugs - falhas de programação.
O que mais impressiona é sua capacidade de tornar invisíveis mecanismos de poder que dependem justamente dessa invisibilidade para continuar funcionando. Pessoas objetivamente prejudicadas por determinadas estruturas passam a defendê-las como se fossem leis da natureza.
É assim que trabalhadores podem apoiar a retirada de direitos que os protegem. Pessoas economicamente vulneráveis passam a se identificar e defender interesses de grupos extremamente privilegiados. Programas sociais voltados aos mais pobres passam a ser tratados como inimigos justamente por quem deles mais necessita. A identidade se funde ao sistema. Questioná-lo passa a significar questionar a própria existência.
O Rei está NU
Talvez nenhuma história ilustre melhor esse fenômeno do que “A Roupa Nova do Rei”, de Hans Christian Andersen. Na versão tupiniquim da fábula, dois irmãos espertalhões anunciam um tecido extraordinário que só pode ser visto pelos inteligentes e competentes. A imprensa noticia. Influenciadores divulgam. Políticos endossam. Empresários e banqueiros patrocinam.
Os vigaristas então começam a tecer o nada. Movem as mãos sobre teares vazios enquanto recebem ouro, milhões em pix, prestígio e aplausos. Um ministro vai verificar. Não vê absolutamente nada. Mas admitir isso significaria assumir-se incompetente. Então elogia o tecido. Outro vai conferir. Faz o mesmo.
Logo ninguém mais vê o tecido, mas todos fingem vê-lo. Até que o REI desfila orgulhosamente com sua roupa invisível e faz discursos contundentes no 7 de setembro. A multidão acredita em cada palavra sem enxergar a nudez. A mentira repetida deixa de ser apenas uma encenação e se transforma numa realidade psicológica.
Foi algo semelhante que vimos em diversos episódios da política brasileira recente. Teorias conspiratórias, fantasias golpistas, expectativas messiânicas e promessas milagrosas encontraram terreno fértil numa população emocionalmente mobilizada e cada vez mais isolada em bolhas de confirmação.
A verdade inconveniente tem custo social. A ficção conveniente oferece pertencimento. Talvez seja essa a principal lição da NORMOSE. Nenhum grupo humano está imune a ela.
Quando uma identidade política se transforma em religião fanática, quando líderes se impõem como infalíveis e quando fatos passam a ser julgados pela conveniência ideológica, a realidade começa a desaparecer diante dos olhos. O problema não é apenas estar enganado, mas precisar permanecer enganado para continuar pertencendo ao grupo.
Nesse momento, o rei já não está apenas nu. Ele passa a desfilar cercado por milhares de pessoas empenhadas em provar que a nudez é, na verdade, um magnífico traje imperial. E quem ousa apontar o óbvio é tratado como louco, traidor ou inimigo.
Até que surge uma criança. Ou um jornalista. Ou um cidadão comum. Ou um “esquerdista”. E lembra que enxergar e dizer a verdade continua sendo um ato revolucionário. A normose não se sustenta pela maldade dos vigaristas, mas pelo silêncio dos espectadores.




