OPINIÃO: Nada justifica a violência contra o direito e a humanidade
Por Carlos Castro - Jornalista da coluna “Estamos de Olho” (Portal Chuville) e candidato a deputado estadual.
Há momentos na história em que os episódios cotidianos deixam de ser meras ocorrências policiais ou políticas para se tornarem espelhos dolorosos de uma sociedade em vertigem. O que assistimos no último final de semana em Jaraguá do Sul não é um fato isolado; é o sintoma purulento de uma barbárie que esgarça o tecido social, ameaçando inviabilizar o próprio ato de conviver.
Quem se debruça sobre a memória da humanidade sabe com clareza solar onde deságuam as correntes da intolerância. Precisaremos, porventura, de novo sangue derramado e das sombras de um novo Holocausto para recordarmos que somos seres dotados de empatia, e não feras alimentadas pelo ódio? Exalta-se a vaidade do poder e o ego cego da imposição da “verdade”, mesmo quando as imagens saltam aos olhos, gritando o oposto.
Na manhã do sábado (12), o centro de Jaraguá do Sul foi palco da primeira centelha: sob o pretexto da provocação política e em busca do aplauso estéril das redes sociais, um candidato do partido Novo agrediu verbalmente militantes que realizavam um ato público. Os ânimos, já inflamados pela polarização, transformaram a praça em arena.
Horas mais tarde, por volta das 20h, o eco dessa intolerância ressoou em um evento familiar. O som de um jingle partidário, que chegava para celebrar um aniversário, motivou a queixa de uma vizinha ao Copom da Polícia Militar, sob a alegação de perturbação ao seu filho autista. Ainda que o estresse coletivo tenha contaminado a abordagem inicial do motorista, as imagens do local comprovam o fato essencial: o som foi desligado e o veículo estacionado. A festa prosseguiu em paz.
Contudo, quase duas horas depois, a viatura policial fez-se presente. Não havia mais música, tampouco desordem. O que se seguiu, e esta é a conclusão límpida de quem analisa a totalidade dos fatos, foi uma intervenção despropositada, movida pelo estigma ideológico contra os presentes. A narrativa oficial apressou-se em divulgar recortes convenientes, silenciando o instante exato em que a truculência se originou.
Quando os policiais deram voz de prisão ao motorista e à sua esposa, emergiu a figura da advogada Fernanda Klitzke. Cumprindo seu dever sagrado e respaldada pela Lei Federal nº 8.906/1994 (Estatuto da OAB), Fernanda interpôs a razão e o direito, pedindo ponderação aos agentes. Em resposta ao exercício legítimo da advocacia, o ódio institucionalizado transbordou. A Dra. Fernanda foi agredida fisicamente, alvejada à queima-roupa por disparos de elastômero (balas de borracha) e violentamente detida. As imagens desse ato desmedido causam profunda repulsa a qualquer espírito civilizado.
Conheço Fernanda Klitzke há cerca de duas décadas. Aprendi a respeitar sua linhagem ética ainda nos tempos de seu pai, o Doutor José Alberto Klitzke, notável Promotor de Justiça em Jaraguá do Sul e Secretário de Estado da Administração em 1986, de quem me aproximei por meio do amigo e advogado Airton Sudbrack.
Fernanda carrega na alma uma fidalguia e uma cortesia ímpares; foi Chefe de Gabinete da Prefeitura na gestão de Dieter Janssen e sempre devotou à comunidade um sorriso generoso. Irônica e dolorosamente, em sua trajetória, chegou a ser homenageada com o título de “Amiga do Batalhão” da Polícia Militar. Nada, absolutamente nada, justifica a brutalidade que sofreu.
Diante do horror, a postura do governador Jorginho Mello revelou-se trágica. Em vez de determinar a rigorosa apuração dos excessos, optou pela retórica rasa do espetáculo digital. Premido pelo receio político de um eventual segundo turno e pela ameaça à sua reeleição, o chefe do Executivo preferiu desqualificar a vítima, uma mulher cujo corpo traz hoje as marcas contundentes de chutes e duas perfurações de munição não letal. Ao apostar na normalização da violência e ao flertar abertamente com o fascismo, o governo estadual atenta contra a verdade e recusa até mesmo o uso de câmeras corporais no fardamento policial, instrumento que protegeria os bons policiais e revelaria a realidade sem retóricas.
É aterrador contemplar a apatia e o sadismo nos comentários daqueles cujas mentes foram capturadas pelo extremismo. A sensibilidade moral do nosso povo parece virada do avesso. Não se pode ignorar que Santa Catarina abriga cerca de 35% de analfabetos funcionais, uma parcela da população vulnerável à manipulação pelo medo e à fabricação de inimigos imaginários, técnica propagandística tristemente aperfeiçoada por Joseph Goebbels nos anos mais sombrios do Nazismo no século XX.
Os democratas e os defensores da dignidade humana não podem se refugiar no silêncio. É imperativo erguer a voz contra esse método de embrutecimento antes que a sanidade seja irreversivelmente banida da vida pública catarinense.
Minha candidatura à Assembleia Legislativa nasce justamente dessa urgência: o dever moral de romper com a polarização cega e resgatar o diálogo. Escrevo estas linhas não apenas como candidato, mas como cidadão e jornalista comprometido com a verdade. Combateremos a truculência com o humanismo e contraporemos a luz da democracia à penumbra do fascismo. A civilização há de prevalecer sobre a barbárie.









