OPINIÃO: IDEM expõe a crise na educação de Joinville
Por Jane Becker – professora da rede municipal de Joinville e ex-presidenta do SINSEJ
Foto: Folha de São Paulo
Na manhã desta terça-feira (31), em reunião virtual com professores e integrantes da rede municipal de ensino, o secretário de Educação de Joinville, Diego Calegari, apresentou os resultados do IDEM (Índice de Desenvolvimento da Educação Municipal) e reconheceu que as metas de aprendizagem não foram atingidas. O índice apontou estagnação e queda na proficiência dos estudantes, confirmando um cenário preocupante para a educação do município. “Nesse momento realmente tivemos uma certa estagnação ao não atingirmos os resultados esperados”, afirmou o secretário durante a apresentação.
Embora a nota oficial da Prefeitura destaque o melhor fluxo escolar da série histórica, com altos índices de aprovação e baixa taxa de abandono, é preciso olhar com responsabilidade para o dado mais importante da educação: a aprendizagem dos estudantes. E, nesse ponto, os números mostram um claro sinal de alerta.
Joinville já teve uma das melhores redes municipais de educação do país, reconhecida nacionalmente por sua qualidade, valorização dos profissionais e resultados pedagógicos. Os salários eram diferenciados e chegaram a ser significativamente superiores aos pagos na rede pública estadual, o que contribuía para a permanência dos profissionais e para a estabilidade das equipes escolares.
Nos últimos anos, porém, a política educacional passou a adotar uma lógica de meritocracia e bonificação por resultados que fragiliza o coletivo escolar. O Programa de Valorização por Resultados na Aprendizagem, baseado em metas, frequência e critérios individuais, foi duramente combatido pela gestão Servidor em Luta do SINSEJ por entender que os recursos do Fundeb deveriam ser incorporados ao salário de TODOS os profissionais da educação e não transformados em gratificação condicionada a indicadores.
O modelo é injusto. Um professor que adoece, mesmo sendo comprometido e competente, pode perder parte significativa ou total de sua gratificação. Isso penaliza o trabalhador e ignora as condições reais de trabalho nas escolas. Educação não se faz com competição entre profissionais, mas com valorização, estabilidade e condições dignas de trabalho.
Um dos principais fatores que ajudam a explicar o retrocesso apontado pelo IDEM é a falta de professores e a sobrecarga das equipes escolares na rede municipal. Em diversas unidades, quando há ausência de profissionais, a orientação da Secretaria de Educação é que a própria escola se reorganize e “dê um jeito”, remanejando servidores e tapando lacunas com o efetivo disponível. Na prática, isso significa alunos sem aula regular, profissionais acumulando funções e prejuízo direto à aprendizagem.
Na escola onde atuo, por exemplo, alunos ficaram cerca de dois meses sem professor de matemática, situação que compromete o processo pedagógico e evidencia a falha da rede em garantir o básico: professor em sala de aula. Além disso, duas professoras efetivas pediram exoneração recentemente; uma delas foi convencida a reduzir a carga horária e, após licença para tratamento de saúde, acabou readaptada em outra função. Dois professores contratados também deixaram a unidade para migrar para a rede estadual, em busca de melhores condições de trabalho e valorização profissional.
A sobrecarga não se limita ao corpo docente. Os auxiliares de educador estão atendendo um número excessivo de alunos com deficiência e transtornos graves, muitos com nível de suporte severo, o que exige acompanhamento constante e equipe adequada. A profissional responsável pelo Atendimento Educacional Especializado (AEE) da escola foi afastada por 120 dias por problemas de saúde mental, revelando o nível de pressão enfrentado pelos trabalhadores da educação.
Situações cotidianas evidenciam a fragilidade da estrutura. Em determinado dia, um Auxiliar relatou que não poderia sequer fazer intervalo de lanche porque não havia ninguém disponível para permanecer com o aluno durante o recreio. Em outro momento, a escola precisou criar um grupo de WhatsApp de emergência para pedir ajuda quando estudantes entram em crise, pois muitas vezes é necessário mais de um profissional para garantir segurança e cuidado adequado. Isso acontece porque auxiliares estão sobrecarregados, atendendo mais de uma criança com deficiência ao mesmo tempo, o que revela a falta de profissionais e o risco permanente dentro da escola.
Esses exemplos não são casos isolados, mas retratam a realidade de muitas escolas da rede municipal. Quando faltam professores, auxiliares e equipes de apoio, não há política educacional que sustente bons resultados de aprendizagem. O IDEM, nesse sentido, apenas revela em números aquilo que os educadores vivenciam diariamente nas escolas.
O retrocesso apontado pelo índice também está relacionado a outros problemas estruturais já denunciados pelos profissionais da educação: número excessivo de alunos em sala de aula, falta de auxiliares, aumento da burocracia, sobrecarga de trabalho e redução da autonomia pedagógica das escolas. Cada comunidade escolar possui uma realidade distinta, e a tentativa de padronizar toda a rede em uma única visão administrativa acaba engessando o trabalho docente e enfraquecendo os resultados educacionais.
O melhor fluxo escolar divulgado pela Prefeitura não pode esconder a queda na aprendizagem. Aprovar mais alunos sem garantir que aprendam não resolve o problema da educação pública. Permanência é importante, mas aprendizagem é essencial.
Os dados do IDEM devem servir como um alerta para toda a sociedade joinvilense. O retrocesso nos resultados mostra que o atual projeto educacional precisa ser revisto com urgência, com valorização dos profissionais, garantia de professores em sala de aula, melhores condições de trabalho e maior autonomia das escolas.
Os números não são apenas estatísticas: são um chamado à reflexão sobre qual educação queremos para nossas crianças e sobre a responsabilidade coletiva de defender uma escola pública de qualidade, com aprendizagem real e valorização dos seus profissionais.

Redação
Direto da redação











