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OPINIÃO: IDEM expõe a crise na educação de Joinville

Por Jane Becker – professora da rede municipal de Joinville e ex-presidenta do SINSEJ

Atualizado em 01/04/2026 às 07:04, por Redação.

Foto: Folha de São Paulo

Na manhã desta terça-feira (31), em reunião virtual com professores e integrantes da rede municipal de ensino, o secretário de Educação de Joinville, Diego Calegari, apresentou os resultados do IDEM (Índice de Desenvolvimento da Educação Municipal) e reconheceu que as metas de aprendizagem não foram atingidas. O índice apontou estagnação e queda na proficiência dos estudantes, confirmando um cenário preocupante para a educação do município. “Nesse momento realmente tivemos uma certa estagnação ao não atingirmos os resultados esperados”, afirmou o secretário durante a apresentação.

Embora a nota oficial da Prefeitura destaque o melhor fluxo escolar da série histórica, com altos índices de aprovação e baixa taxa de abandono, é preciso olhar com responsabilidade para o dado mais importante da educação: a aprendizagem dos estudantes. E, nesse ponto, os números mostram um claro sinal de alerta.

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Joinville já teve uma das melhores redes municipais de educação do país, reconhecida nacionalmente por sua qualidade, valorização dos profissionais e resultados pedagógicos. Os salários eram diferenciados e chegaram a ser significativamente superiores aos pagos na rede pública estadual, o que contribuía para a permanência dos profissionais e para a estabilidade das equipes escolares.

Nos últimos anos, porém, a política educacional passou a adotar uma lógica de meritocracia e bonificação por resultados que fragiliza o coletivo escolar. O Programa de Valorização por Resultados na Aprendizagem, baseado em metas, frequência e critérios individuais, foi duramente combatido pela gestão Servidor em Luta do SINSEJ por entender que os recursos do Fundeb deveriam ser incorporados ao salário de TODOS os profissionais da educação e não transformados em gratificação condicionada a indicadores.

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O modelo é injusto. Um professor que adoece, mesmo sendo comprometido e competente, pode perder parte significativa ou total de sua gratificação. Isso penaliza o trabalhador e ignora as condições reais de trabalho nas escolas. Educação não se faz com competição entre profissionais, mas com valorização, estabilidade e condições dignas de trabalho.

Um dos principais fatores que ajudam a explicar o retrocesso apontado pelo IDEM é a falta de professores e a sobrecarga das equipes escolares na rede municipal. Em diversas unidades, quando há ausência de profissionais, a orientação da Secretaria de Educação é que a própria escola se reorganize e “dê um jeito”, remanejando servidores e tapando lacunas com o efetivo disponível. Na prática, isso significa alunos sem aula regular, profissionais acumulando funções e prejuízo direto à aprendizagem.

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Na escola onde atuo, por exemplo, alunos ficaram cerca de dois meses sem professor de matemática, situação que compromete o processo pedagógico e evidencia a falha da rede em garantir o básico: professor em sala de aula. Além disso, duas professoras efetivas pediram exoneração recentemente; uma delas foi convencida a reduzir a carga horária e, após licença para tratamento de saúde, acabou readaptada em outra função. Dois professores contratados também deixaram a unidade para migrar para a rede estadual, em busca de melhores condições de trabalho e valorização profissional.

A sobrecarga não se limita ao corpo docente. Os auxiliares de educador estão atendendo um número excessivo de alunos com deficiência e transtornos graves, muitos com nível de suporte severo, o que exige acompanhamento constante e equipe adequada. A profissional responsável pelo Atendimento Educacional Especializado (AEE) da escola foi afastada por 120 dias por problemas de saúde mental, revelando o nível de pressão enfrentado pelos trabalhadores da educação.

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Situações cotidianas evidenciam a fragilidade da estrutura. Em determinado dia, um Auxiliar relatou que não poderia sequer fazer intervalo de lanche porque não havia ninguém disponível para permanecer com o aluno durante o recreio. Em outro momento, a escola precisou criar um grupo de WhatsApp de emergência para pedir ajuda quando estudantes entram em crise, pois muitas vezes é necessário mais de um profissional para garantir segurança e cuidado adequado. Isso acontece porque auxiliares estão sobrecarregados, atendendo mais de uma criança com deficiência ao mesmo tempo, o que revela a falta de profissionais e o risco permanente dentro da escola.

Esses exemplos não são casos isolados, mas retratam a realidade de muitas escolas da rede municipal. Quando faltam professores, auxiliares e equipes de apoio, não há política educacional que sustente bons resultados de aprendizagem. O IDEM, nesse sentido, apenas revela em números aquilo que os educadores vivenciam diariamente nas escolas.

O retrocesso apontado pelo índice também está relacionado a outros problemas estruturais já denunciados pelos profissionais da educação: número excessivo de alunos em sala de aula, falta de auxiliares, aumento da burocracia, sobrecarga de trabalho e redução da autonomia pedagógica das escolas. Cada comunidade escolar possui uma realidade distinta, e a tentativa de padronizar toda a rede em uma única visão administrativa acaba engessando o trabalho docente e enfraquecendo os resultados educacionais.

O melhor fluxo escolar divulgado pela Prefeitura não pode esconder a queda na aprendizagem. Aprovar mais alunos sem garantir que aprendam não resolve o problema da educação pública. Permanência é importante, mas aprendizagem é essencial.

Os dados do IDEM devem servir como um alerta para toda a sociedade joinvilense. O retrocesso nos resultados mostra que o atual projeto educacional precisa ser revisto com urgência, com valorização dos profissionais, garantia de professores em sala de aula, melhores condições de trabalho e maior autonomia das escolas.

Os números não são apenas estatísticas: são um chamado à reflexão sobre qual educação queremos para nossas crianças e sobre a responsabilidade coletiva de defender uma escola pública de qualidade, com aprendizagem real e valorização dos seus profissionais.


Redação

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