OPINIÃO: Camarada Serge Goulart, PRESENTE!
Joinville e o Brasil perdem uma figura importante na luta pelo trabalhador. Por Carlos Castro, jornalista
“Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.” — Bertolt Brecht.
A vanguarda da luta de classes perdeu um desses homens imprescindíveis. Serge Goulart foi, no Brasil, o fio vivo de continuidade do bom e velho comunismo, mantendo acesa a chama do ideário de Leon Trotsky e da IV Internacional. Mais do que um líder e mentor por mais de uma década, Serge foi um amigo cujo vigor revolucionário deixará marcas indeléveis na história da classe trabalhadora.
Foi sob o seu comando inspirador que eu — então um jovem radialista e militante estudantil — vi minha vida se entrelaçar à história do movimento operário. Lado a lado como camaradas, organizamos a greve e a histórica ocupação da Cipla e da Interfibra, colocando-as sob controle dos trabalhadores.
Após oito dias de greve, na mesa de negociação tensa, com o destino de mil operários em jogo, o telefone tocou. Era Serge chamando o camarada Chico Lessa. Ao desligar, Chico me olhou e disse que Serge queria falar comigo. Do outro lado da linha, veio a ordem certeira: eu assumiria o comando da fábrica. Tomado de espanto, disparei: “Você ficou louco? Não sei administrar nem a minha vida, imagina uma fábrica deste tamanho!”. A resposta de Serge veio carregada daquela confiança que só os verdadeiros líderes detém: “Os trabalhadores confiam em você. Então será você”.
Meses depois, passei a gestão administrativa para as mãos de quem tinha a maturidade e a têmpera necessárias para conduzir o Conselho Administrativo e Financeiro (CAF). Serge assumiu o comando técnico; eu permaneci na linha de frente política e da comunicação, ombreando com Osvaldo, Clodoaldo, Silvia e o saudoso Hélio. Tenho um orgulho visceral dos 4 anos e 7 meses em que sustentamos essa trincheira (31 de outubro de 2002 a 31 de maio de 2007).
Erguemos em Joinville um micromodelo da Revolução Russa. Parafraseando Marx sobre a heroicidade dos operários da Comuna de Paris, nós tomamos o céu de assalto. Se em 1871 a Comuna resistiu por 72 dias, e se em 1917 os bolcheviques fizeram tremer o mundo, nós provamos no chão de fábrica que a classe trabalhadora é capaz de gerir seu próprio destino. O nosso exemplo ecoou e acendeu a faísca para a ocupação de outras trinta fábricas país afora.
A reação do capital não tardou. Temendo o contágio da audácia operária — sob o pavor explícito de "e se essa moda pega?", como registrou o próprio magistrado ao decretar a intervenção —, a contra-revolução nos atropelou. Fomos chamados de "guerrilheiros" pela imprensa da época, um rótulo que carregamos não como culpa, mas como honra.
A história dessa epopeia está registrada no livro “Memórias das Ocupações de Fábricas”, do camarada José Onírio Martins. Serge escreveu a introdução, e eu ofereci minhas memórias para que essa chama não se apague. Eu vivia a expectativa alegre de reencontrar Serge no lançamento da obra, marcado para 1º de outubro no Sinsej. Hoje, a notícia de sua partida me tirou o chão.
Serge Goulart foi um combatente trotskista incansável, um teórico brilhante e um ser humano de sensibilidade ímpar. Um comunista convicto que dedicou cada segundo de sua existência à construção de uma sociedade sem classes, sem a exploração do homem pelo homem — um mundo onde as relações humanas sejam pautadas pela felicidade cotidiana, e não pelo ódio ou pela opressão.
As memórias de nossas batalhas seguirão vivas em mim, eternamente entrelaçadas à lembrança de outro gigante que nos deixou, o camarada Chico Lessa, motor infatigável dessa mesma história.
A luta continua, camarada. Seu exemplo permanece em cada fábrica, em cada praça e em cada coração operário que se levanta contra a injustiça.
Camarada Serge Goulart: PRESENTE, HOJE E SEMPRE!








