OPINIÃO: 28 de Junho - Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+
Memória, Verdade e Justiça: Orgulho, Ancestralidade e a Luta pela Dignidade Humana das Mulheres Trans e Travestis, por Scarlett Gonçalves de Oliveira da Silva
O Mês do Orgulho, para mim, é um tempo de memória, verdade, justiça e esperança. Como mulher trans, artista drag queen, produtora cultural, defensora dos direitos humanos e moradora de um território quilombola em Araquari-SC, compreendo que minha trajetória faz parte de uma história coletiva construída por pessoas e comunidades que resistiram às desigualdades para afirmar o direito de existir com dignidade.
A diversidade humana sempre esteve presente na história da humanidade. No entanto, ao longo dos séculos, diferentes estruturas de poder produziram desigualdades que continuam impactando a vida de milhões de pessoas. As experiências das mulheres trans e travestis demonstram como a transfobia, a misoginia, o racismo, o capacitismo, a xenofobia e outras formas de discriminação podem se cruzar e ampliar processos de exclusão social, econômica, política e cultural.
Essas desigualdades tornam-se ainda mais profundas quando atingem mulheres trans e travestis negras, quilombolas, pertencentes aos povos originários e indígenas, povos e comunidades tradicionais, pessoas migrantes, refugiadas, imigrantes e pessoas com deficiência. Por isso, compreender a realidade a partir da interseccionalidade é fundamental para reconhecer que diferentes formas de opressão atuam simultaneamente sobre determinados grupos sociais.
A omissão do poder público no enfrentamento dessas desigualdades produz impactos concretos na vida das pessoas
A exclusão educacional, as barreiras de acesso ao mercado de trabalho, a precarização econômica e a limitação de oportunidades continuam afetando significativamente a população trans e travesti. Muitas vezes, essa exclusão impede o pleno exercício da cidadania e restringe perspectivas de desenvolvimento pessoal, profissional e comunitário.
A saúde mental também precisa ocupar um lugar central nesse debate. Diversas pesquisas demonstram que mulheres trans e travestis apresentam índices mais elevados de sofrimento psíquico, ansiedade, depressão e outros agravos relacionados à saúde mental. Entretanto, esse sofrimento não decorre da identidade de gênero, mas das violências, discriminações e exclusões que ainda persistem na sociedade. O adoecimento crônico frequentemente está relacionado ao estresse contínuo provocado pela necessidade de enfrentar preconceitos, inseguranças e negações de direitos ao longo da vida.
Existe uma sabedoria ancestral presente em diferentes culturas que nos ensina que saúde não é apenas ausência de doença.
Saúde é pertencimento, reconhecimento, cuidado e dignidade. Por isso, promover a saúde mental das mulheres trans e travestis significa também garantir acesso à educação, trabalho, cultura, moradia, proteção social e participação cidadã.
Como artista drag queen e produtora cultural, acredito profundamente no poder transformador da arte e da cultura. A cultura preserva memórias, fortalece identidades, combate preconceitos, produz conhecimento e amplia nossa capacidade de imaginar futuros mais justos. A arte é uma ferramenta de resistência, de pertencimento e de construção de novas possibilidades para a sociedade.
Meu orgulho também é coletivo. Ele carrega a força das travestis e mulheres trans que abriram caminhos antes de nós, das comunidades quilombolas, dos povos originários e indígenas, dos povos e comunidades tradicionais, dos movimentos sociais e de todas as pessoas que lutam por uma sociedade mais democrática, inclusiva e humana.
Acredito que Memória, Verdade e Justiça são compromissos permanentes. Memória para que as histórias de resistência não sejam apagadas. Verdade para que as desigualdades e violências sejam reconhecidas e enfrentadas. Justiça para que todas as pessoas possam viver com liberdade, respeito, pertencimento e equidade.
Para mim, o Orgulho significa a coragem de existir sem pedir permissão, de resistir às desigualdades e de continuar acreditando na construção de um mundo onde todas as pessoas possam viver plenamente sua humanidade. Um mundo em que a diversidade seja reconhecida como riqueza coletiva e em que a dignidade humana alcance todas as vidas, sem exceção.






