MENTALIDADE CONSCIENTE: Você é capaz de encontrar sua criança em meio ao caos?
Na coluna desta semana, uma importante reflexão sobre o que é maturidade, o poder da reflexão em meio ao caos particular e, sobretudo, a capacidade de encontrar em nosso interior, aquilo que nos faz bem.
Em minha busca incessante pelo conhecimento — lendo livros, pesquisando, assistindo a vídeos, refletindo sobre os fragmentos que compõem o complexo mosaico da psiquê humana — procuro não apenas compreender a mim mesmo, mas também oferecer ao leitor desta Coluna elementos que possam contribuir na iluminação de sua própria jornada.
Recentemente, assistindo a um corte do Flow Podcast com o economista José Kobori, vivi uma experiência ímpar. O extraordinário se misturou ao inquietante. O estalo fez uma peça fundamental do quebra-cabeça finalmente encontrar seu lugar. Foi como se um “ficheiro” inteiro de compreensão tivesse sido despejado sobre minha consciência.
Minha fome pelo conhecimento não é recente. Ela me acompanha desde a infância, quando frequentava a Escola Dominical da Assembleia de Deus, em São Francisco do Sul. Lia a Bíblia com avidez e participei de inúmeros cursos bíblicos. Talvez por isso conheça boa parte de suas páginas de memória.
Com o passar dos anos, porém, outros conhecimentos vieram se somar à minha formação. Hoje, já não enxergo a Bíblia como um livro sagrado no sentido dogmático da palavra, mas como uma obra fundamental para compreender a história do povo hebreu no Velho Testamento e a trajetória de Jesus e seus discípulos no Novo Testamento.
Mais do que isso, vejo nela um extraordinário compêndio de sabedoria humana. Em suas páginas encontram-se códigos profundos para uma vida de plenitude material, emocional e espiritual. Basta recordar os Salmos de Davi, os Provérbios dos sábios, o existencialismo de Eclesiastes ou a pedra angular da filosofia de vida: o Sermão da Montanha proferido por Jesus.
O ficheiro da maturidade
Mas voltando ao “ficheiro” que caiu sobre minha cabeça. Ao ouvir o diálogo entre Igor Coelho e José Kobori sobre a necessidade de reencontrarmos nossa criança interior — essa guardiã silenciosa de nossa essência e, ao mesmo tempo, depositária de nossas sombras — uma palavra emergiu com clareza cristalina em minha mente: Maturidade.
Não a maturidade social que a idade nos concede. Nem aquela associada às responsabilidades da vida adulta. Refiro-me à maturidade da alma. Uma qualidade rara, que floresce somente quando o espírito está preparado para encarar o espelho sem filtros e sem máscaras; quando reúne coragem suficiente para descer ao porão do inconsciente e confrontar os traumas, dores, medos e feridas que ali permanecem esquecidos pela consciência, mas ativos pelo inconsciente.
E, diferentemente do que sugeriu Igor durante a conversa, de que “um dia” vai olhar para ajustar a sua sombra, não estou convencido de que essa seja uma decisão inteiramente consciente. Parece-me que algo mais profundo acontece. Talvez uma decisão com interferência espiritual.
Talvez exista um momento em que a própria vida, em seu misterioso processo dialético de transformação, reconheça que o discípulo finalmente está pronto para receber o mestre. E este pode surgir na forma de uma experiência, de um sofrimento, de uma perda, de um livro, de uma música, de um choque como ocorreu comigo ou de um novo conhecimento. O que importa no fato é que tenha a capacidade de despertar e expandir radicalmente a consciência. Diria Einstein, “Uma mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao tamanho original”.
Quando isso acontece, entramos na crisálida e inicia-se uma metamorfose. Uma travessia. Uma espécie de Caminho de Compostela interior que inevitavelmente passa pelo Vale das Sombras. É uma jornada difícil. Dolorosa. Muitas vezes solitária.
Lembra a antiga metáfora da águia que, ao atingir certa idade, precisa escolher entre morrer lentamente ou enfrentar um doloroso processo de renovação. Quebra o próprio bico, arranca as velhas penas, abandona aquilo que já não serve. Somente depois renasce e voa altiva com profunda percepção sobre a realidade. Assim também acontece conosco. Esse é o método para atingir a maturidade.
Pink Floyd dialoga com nossa criança ferida
Na entrevista, Kobori afirma que, ao reencontrarmos nossa criança interior, compreendemos finalmente nossos porquês. Descobrimos a origem de muitos comportamentos e começamos a curar feridas que nos acompanham desde a infância.
Para ilustrar essa ideia, ele recorre às canções Comfortably Numb e Wish You Were Here, da lendária e insuperável banda Pink Floyd. Foi meu amigo Rui Maciel, ainda na adolescência em nossa amada São Chico, quem me apresentou esse universo sonoro e filosófico. Desde então, jamais consegui ouvir suas músicas apenas com os ouvidos. Elas exigem a participação da alma.
Assim como Fiódor Dostoiévski e Oscar Wilde traduziram, na literatura, Pink Floyd conseguiu transformar em música as profundezas da alma humana, os dramas e conflitos da existência, as dores invisíveis que carregamos.
Em Comfortably Numb, ouvimos: "A criança cresceu...O sonho se foi...E eu me tornei...confortavelmente entorpecido". Já em Wish You Were Here, a reflexão ganha contornos ainda mais profundos: "Somos duas almas perdidas...nadando em um aquário, ano após ano...Correndo sobre o mesmo velho chão...O que encontramos?...Os mesmos velhos medos".
Enquanto escrevo estas linhas, ouvindo as inconfundíveis melodias em consonância com a voz de David Gilmour, sinto arrepio e emoção percorrerem o meu corpo. Porque essas canções não falam apenas de ausência. Falam de desencontro. Falam da distância entre quem somos e quem poderíamos ser. Falam da criança que ficou para trás.
Para resgatar nossos sonhos, nossos porquês e nossa essência, precisamos mergulhar nas profundezas do oceano interior. Precisamos atravessar as águas escuras das sombras até alcançar a ilha onde nossa criança ainda espera. E quando finalmente a encontrarmos, talvez descubramos que ela nunca esteve perdida. Era nós que estávamos.
A conexão com nossa criança interior
Num diálogo sincero com essa parte esquecida de nós mesmos, sua voz será capaz de dissolver os entorpecimentos da alma. Ela nos ajudará a romper os grilhões invisíveis dos traumas, a abandonar os velhos medos e a despertar a maturidade necessária para viver o propósito que permanece latente em nosso íntimo. Aquele ainda não descoberto devido às travas do “velho chão e dos mesmos velhos medos”.
Ao concluir a leitura deste artigo, convido você a fazer uma pausa. Respire profundamente algumas vezes. Ouça Comfortably Numb. Ouça Wish You Were Here. Leia suas letras. E reflita. Observe a vida que você tem. Observe a vida que seu espírito deseja viver. Permita que essas palavras atravessem as muralhas da razão e alcancem as profundezas do inconsciente.
Talvez algo desperte. Talvez o porteiro da consciência permita a porta se abrir. Talvez uma nova direção se revele. E, quem sabe, os fantasmas que hoje habitam seus corredores internos deem lugar aos seus heróis da infância que aguardam para se manifestar.
Então, a fumaça do navio distante no horizonte já não impedirá a criança de ouvir aquilo que seus lábios têm tentado dizer durante toda a vida. Porque, finalmente, ela terá voltado para casa com a missão de romper as correntes e as grades que cercam a sua MENTALIDADE CONSCIENTE.




