MENTALIDADE CONSCIENTE: estamos na era da NORMOSE, a Patologia da Normalidade
A coluna Mentalidade Consciente desta semana traz a análise baseada nos conceitos do psicólogo e escritor francês, naturalizado brasileiro, Pierre Weil. Não se surpreenda se você se identificar com este texto!
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O problema com o senso comum é que ele não é nem sensato nem comum.
Na busca desenfreada e obstinada pelo conhecimento, em minha passagem pelo vale das sombras em pleno deserto da alma, sinto a necessidade de descrever minhas visões, entendimentos e experiências. Minha formação jornalística e habilidades adquiridas ao longo de meus 55 anos permitem interpretar e descrever de maneira didática temas complexos, livres do senso comum.
Nesta Coluna vou tratar sobre a NORMOSE, conceito criado pelo renomado psicólogo, escritor francês, naturalizado brasileiro, Pierre Weil, conhecido como o “Samurai da Paz”. Autor de mais de 40 livros, incluindo o best-seller, “O Corpo Fala”, sobre comunicação não verbal. Mas a fonte central do artigo será a extraordinária obra do psicólogo e terapeuta, Jair Soares, que desenvolveu o conceito e traduziu no livro, “Normose – a Patologia da Normalidade”.
Estamos vivendo num universo onde patologias e vícios espirituais estão normalizados. Falo do ódio, raiva, ganância, maldade, perversidade, inveja, vaidade, intolerância, egoísmo, entre outros que bloqueiam o progresso espiritual. O resultado? Tormento e dor em baixa vibração na sintonia com obsessores espirituais e encarnados. As energias maléficas desses vícios pululam nas redes sociais e meios de comunicação, contaminando a nossa mente e nossa praxis, da relação comum ao planetário, fundamentando uma egrégora espessa no inconsciente coletivo. Esse é o universo da NORMOSE, a infame patologia da normalidade.
Vamos analisar diferenças cruciais entre o que é saudável e o que é normal para arrancar a capa da invisibilidade da Normose. Pensemos num aquário grande com belos peixinhos que ali nasceram e nunca saíram. O aquário é o seu universo. As paredes de vidro são o horizonte. A água e os limites espaciais são a sua realidade.
Quando alguém decide limpar o aquário, retirando temporariamente os peixes de seu ambiente, colocando-os num balde, há uma mudança radical e chocante que os desorientam. É exatamente assim que nos sentimos quando passamos a perceber e questionar a Normose. É desconfortável e assustador, porém, é um sinal genuíno de que estamos despertos às mudanças. Afinal, os peixes só passam a saber sobre o aquário quando são retirados daquele ambiente.
A mudança pela Metanoia
A metáfora da saída do aquário pode servir de analogia ao processo da METANOIA (transformação) espiritual que visa não deixar pedra sob pedra do velho ser. Este precisa ser dizimado e o parto do renascimento é doloroso. Estou ainda em longínqua distância para “chegar lá”, de me transformar num novo ser, a minha melhor versão para merecer as benesses do Nirvana espiritual, porém, estou concentrado, buscando avidamente, conhecimento e conexão com a fagulha divina que todos temos em nossa alma. É o processo do meu caminho de Compostela. E talvez, as informações e experiências por mim vividas nessa trajetória difícil, possam ter utilidade aos leitores que estejam passando por experiências e buscas semelhantes.
Há uma distância entre a vida que vivemos e a vida que desejamos. A vida abundante prometida por Jesus em João 10:10. Às vezes tentamos alcançá-la com terapias, cursos, leitura, meditação, mudança de emprego, mudança de relacionamento, ao se ajoelhar e orar no templo, mas não conquistamos a profunda transformação. Parece que falta algo, uma peça, uma chave, um gatilho, uma perspectiva. Enxergamos nos outros o que não queremos em nós, mas temos dificuldade de enxergar nossos padrões comportamentais nocivos.
Como pai, fui carinhoso e amoroso com meus filhos quando crianças, mas sempre tive dificuldade de expressar o amor que sentia durante a adolescência e na fase adulta deles. Ao sofrer o choque que sofri, busquei entender por que isso ocorria. Uma das prováveis razões, é o fato de eu ter perdido o meu pai aos 4 anos, após ele ter tentado salvar um amigo num poço de gás na cidade industrial em Curitiba, em 19 de novembro de 1974. Morreu aos 28 anos. Portanto, a figura paterna sempre esteve ausente e isso me trouxe traumas emocionais durante toda minha vida. Mas foi o processo de Metanoia em que estou envolvido que me fez perceber isso. Por isso, devemos fazer a pergunta: “O que em mim está criando o que eu não quero”?
A dor é um remédio poderoso, mas cuidado com o desespero
A dor é o melhor remédio para recalcular rota e corrigir rumos. Ao senti-la nos machucando, passamos a ter pressa em eliminá-la, porém, sob o risco de correr na direção errada. Queremos aliviar o sintoma, mas sem investigar a causa, corremos o risco de entrar num labirinto, desesperados para sair. Portanto, precisamos buscar o diagnóstico correto das motivações e causas que afligem o nosso ser. A nossa experiência e praxis do passado são boas pistas para compreender as razões dos traumas. Como escreveu Jair Soares no livro, “nenhum software instalado na infância precisa rodar para sempre sem que você pelo menos decida se quer que ele continue rodando”.
Pierre Weil nos faz refletir quando afirma: “A maior tragédia não é a dor que as pessoas sentem. É a dor que elas aprendem a não sentir”. Sob essa base e com o conceito simples na forma e radical no conteúdo, Weil tomou a palavra norma — aquilo que é padrão, comum, esperado — e a juntou com o sufixo – ose, de algo não benigno. Em medicina, esse sufixo designa condição patológica. Artrose é a degeneração das articulações. Neurose é um estado de sofrimento psíquico. Ele sinaliza um processo que está funcionando de forma errada, destruindo algo que deveria ser preservado. A palavra que Weil criou foi Normose.
Jair Soares esclarece que a definição é perturbadora exatamente porque rompe com uma das premissas mais fundamentais que usamos para navegar a vida: a de que o que é comum é seguro. Que o que todo mundo faz não pode ser tão errado assim. Que se a maioria das pessoas funciona de determinada maneira, essa maneira deve ter pelo menos alguma solidez, alguma validade, alguma razão de ser. Normose diz: não necessariamente.
As imperfeições normalizadas pela Normose
É possível e frequente que comportamentos, crenças, relações e formas de ver o mundo estejam causando danos reais e profundos a uma quantidade enorme de pessoas, e que ninguém perceba isso porque estão todos fazendo a mesma coisa. Que a escala do problema, em vez de ser uma evidência de que há algo errado, seja usada como argumento de que tudo está certo. É nesse contexto que entra a normalização das imperfeições morais e espirituais, completamente em voga na atualidade com seus efeitos devastadores. Vale repetir que o ódio, a intolerância, a raiva, a ganância, a maldade, o egoísmo, a inveja, se naturalizaram e congelaram o AMOR.
A mentalidade humana está tão contaminada pela Normose que é natural afirmar: “todo mundo faz assim”, “sempre foi assim”, “é da natureza humana”. Não há o que fazer. É como somos. Pior, questionar esse mantra é coisa de ingênuo, utópico ou radical, desconectado da realidade. Quem questiona o normal, mesmo que silenciosamente, sente o peso de estar nadando contra a correnteza que todo mundo ao redor aceita como o único sentido possível. Assim, aflora nos despertos o sentimento de impotência, angústia, ansiedade e indignação, mesmo que contida.
Mas o autor, Jair Soares entende que quando você deixa de tratar a correnteza como força natural e começa a vê-la como o que é: um conjunto de padrões aprendidos, significa que, como qualquer aprendizado, pode ser revisado. Basta ter olhos para ver como a Normose foi estruturada para não ser percebida. Portanto, compreensão é o gatilho para romper com as amarras. Não estávamos com os olhos fechados. Estávamos usando os olhos que nos deram, calibrados para enxergar o que era considerado normal no ambiente em que crescemos. Para ver diferente, é preciso lente diferente.
A Normose como padrão de geração a geração
A Normose não se perpetua por maldade. Se perpetua por invisibilidade. Os padrões transmitidos foram recebidos e repassados de geração para geração. A mudança ocorre quando socialmente percebemos os efeitos e seus estragos. Até algum tempo atrás, fumar dava status. Hoje, é visto com “maus olhos” pelo prejuízo causado à saúde pública.
A compreensão da Normose não busca culpados. Ao contrário, cria a distância necessária para ver o padrão de forma clara o suficiente para decidir, agora, com a consciência adquirida, o que devemos manter e o que devemos transformar em nossas vidas. Essa é uma decisão individual e de suma importância aos despertos para saber como se relacionar daqui para frente com o próprio cotidiano. Preserva-se os bons hábitos e virtudes sociais e familiares e corrige-se os vícios e imperfeições.
A Normose não contamina tudo. O objetivo não é rejeitar toda herança cultural, toda tradição familiar, toda forma de convivência que foi transmitida. O objetivo é distinguir o que serve do que limita. O que nutre do que drena. O que você escolheria conscientemente, se tivesse escolha, do que você nunca chegou a escolher porque nunca lhe ocorreu que havia opção. Se você quer se aprofundar no tema, leia a obra de Jair Soares. Sua vida ganhará um novo sentido.

Carlos Castro
Carlos Castro cursou Jornalismo no Ielusc, tem forte formação sindical e já trabalhou em diversas emissoras de rádio de SC. Liderou movimentos sociais, partidários e hoje é colunista do Chuville Notícias. Sua coluna semanal "Mentalidade Consciente" traz reflexões fundamentadas que servem de inspiração para a sociedade frenética atual. Contato: castrorevival@gmail.com











