Joinville busca agilizar reabilitação de pacientes com Guillain-Barré
Debate na Câmara discutiu atendimento após a alta e prioridade para fisioterapia nos primeiros meses de recuperação. Síndrome pode surgir após a infecção por dengue, aponta estudo da Fiocruz.
A recuperação de pacientes com síndrome de Guillain-Barré entrou no debate da Comissão de Saúde de Joinville nesta quarta-feira (9). A principal preocupação apresentada durante a reunião foi garantir que a reabilitação continue logo após a saída do hospital, especialmente para pessoas que precisam de fisioterapia em casa.
O Hospital Municipal São José concentra o atendimento inicial dos casos na cidade. Depois do diagnóstico e da estabilização, o paciente inicia a reabilitação ainda durante a internação. Dependendo da gravidade, também pode receber acompanhamento em casa por meio da Equipe Multidisciplinar de Atendimento Domiciliar (EMAD).
O desafio começa após essa etapa. Com a alta hospitalar, o paciente passa a ser acompanhado pela rede básica. A Secretaria Municipal de Saúde informou que pessoas acamadas ou com dificuldade de locomoção podem receber fisioterapia em casa por meio das equipes eMulti ou de prestadores credenciados pelo município.
A regulação segue o protocolo destinado a pacientes com problemas neurológicos. No entanto, quem está entre zero e três meses após o início da doença recebe classificação P1, considerada prioridade para o atendimento.
A medida foi defendida pelo vereador Doutor Cassiano Ucker (PL). Segundo ele, a rapidez no início da reabilitação é importante para aumentar as possibilidades de recuperação e evitar que o paciente fique com limitações permanentes.
Dificuldades na fisioterapia domiciliar
Durante a reunião, o vereador Pastor Ascendino Batista (PSD) também levou à Comissão de Saúde o caso de uma moradora que estaria enfrentando dificuldades para conseguir atendimento de fisioterapia em casa. A situação levantou questionamentos sobre a existência de demanda reprimida no serviço.
A Secretaria Municipal de Saúde informou que o caso poderá ser analisado individualmente e que os fluxos de atendimento podem ser revisados quando necessário.
Doença pode comprometer movimentos
A síndrome de Guillain-Barré é uma doença rara que afeta o sistema nervoso. O problema ocorre quando o sistema imunológico passa a atacar os nervos periféricos, prejudicando a comunicação entre o cérebro e outras partes do corpo.
Os primeiros sinais podem incluir fraqueza nas pernas e braços, dificuldade para caminhar e alterações na sensibilidade. Em situações mais graves, a doença também pode afetar os músculos responsáveis pela respiração.
O Ministério da Saúde estima entre um e quatro casos para cada 100 mil habitantes por ano no Brasil.
A recuperação varia conforme cada paciente e pode exigir acompanhamento prolongado. A fisioterapia é uma das principais formas de reabilitação e pode incluir exercícios motores e respiratórios. Em alguns casos, também é necessário acompanhamento fonoaudiológico.
Dengue pode aumentar risco de desenvolvimento da Guillain-Barré
Um estudo recente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostrou que pessoas infectadas pelo vírus da dengue têm 16,7 vezes mais chances de desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nas seis semanas após a infecção.
Segundo Ho Yeh Li, infectologista e membro do Comitê Científico de Arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), em entrevista ao site do Doutor Dráuzio Varella, quando uma pessoa é infectada por um vírus como o da dengue, o organismo passa a desencadear respostas autoimunes nas duas primeiras semanas. Essa resposta reage contra os nervos periféricos, o que pode levar à fraqueza muscular e à paralisia, desenvolvendo, em alguns casos, a SGB.
O estudo baseou-se em uma pesquisa com 5.055 pessoas internadas com a SGB no SUS entre 2023 e 2024. Desses pacientes avaliados, 89 desenvolveram a síndrome seis semanas após contrair a dengue. Estima-se que, a cada 1 milhão de pessoas infectadas com o vírus da dengue, 36 podem vir a ser afetadas pela SGB.
Para os especialistas, identificar a doença logo no estágio inicial permite tratamentos mais eficazes e menos traumáticos ao paciente. Após a infecção pelo vírus da dengue, recomenda-se ficar atento a alguns sinais, como:
Fraqueza progressiva nos braços ou pernas
Dificuldade para andar
Formigamentos que se espalham pelo corpo
Dores nos nervos
Paralisia facial
Dificuldade para engolir
Falta de ar
Sonolência excessiva
Confusão mental
Convulsões
Rigidez na nuca
Retenção urinária
A investigação neurológica é feita por meio de uma entrevista clínica, exame neurológico e análise do líquido que envolve o cérebro e a medula espinhal. Um exame de ressonância magnética pode ser solicitado para descartar outras doenças.
Do pico ao controle de casos de dengue em Joinville
Em 2023 e 2024, Joinville atingiu números expressivos de pessoas infectadas com o vírus da dengue. Foram cerca de 27 mil casos em 2023 e mais de 80 mil em 2024, com 83 óbitos. A cidade passou a agir em várias frentes para conter o avanço dos casos, como prevenção, fiscalização, limpeza de casas e locais abandonados e a utilização do Método Wolbachia.
O Método Wolbachia consiste na liberação de mosquitos infectados com a bactéria Wolbachia, que impede a transmissão dos vírus causadores dessas doenças. Com o tempo, a população de mosquitos transmissores é gradualmente substituída, reduzindo a circulação dos vírus.
O município passou a utilizar o método gradualmente em alguns bairros de Joinville em 2025, ampliando com o tempo para 100% do território urbano. Com isso, a cidade se tornou uma das primeiras do país a utilizar o procedimento.
Segundo dados apresentados pela administração municipal, Joinville registrou em 2025 uma redução de 98,74% nos casos de dengue, além de não ter contabilizado mortes pela doença no período, com efeito semelhante em 2026. O município também alcançou o menor risco epidemiológico dos últimos cinco anos e reduziu em 35% os focos do mosquito Aedes aegypti.
O SUS também disponibilizou a vacina contra a dengue, aplicada em duas doses para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos.
Em 2026, até agosto, Joinville registra 60 casos confirmados de dengue e nenhum óbito. Até o momento, não há estudos em Joinville que apontem se os casos de SGB na cidade estão associados às infecções pelo vírus da dengue.










