EXCLUSIVO: Dois lares de idosos de Joinville recebem denúncia por contratação irregular e calote em rescisões
Ex-funcionários de estabelecimentos no Boa Vista e Parque Guarani relatam contratações informais, calote após desligamento e intimidações; proprietárias alegam amparo legal e negam irregularidades.
Funcionários de dois lares de idosos em Joinville, localizados nos bairros Boa Vista e Parque Guarani e pertencentes às mesmas proprietárias, relatam a falta de pagamento de rescisões trabalhistas. Segundo os trabalhadores, as contratações ocorriam de forma informal, sob a promessa não cumprida de formalização via CLT.
De acordo com depoimentos de alguns funcionários dados à reportagem do Chuville Notícias, os casos ocorrem sistematicamente e envolvem mais de 10 funcionários. Há relatos de trabalhadores com mais de três meses de atraso nas rescisões e outros que passam de um ano.
Sem receber o dinheiro, ex-funcionários relatam ter enfrentado o corte de água e luz em casa, e outros contam que precisaram deixar imóveis alugados por falta de pagamento. Quando as proprietárias são cobradas, os trabalhadores ouvem justificativas e ganham novas promessas de datas, que também não são cumpridas.
Para resguardar a integridade física e profissional dos envolvidos diante dos relatos de intimidação, a reportagem optou por preservar a identidade de todas as fontes e das proprietárias, utilizando nomes fictícios para identificar os ex-colaboradores ao longo do texto.
Promessas, ofensas e ameaças
Cansados de esperar, funcionários contam que passaram a cobrar o pagamento e questionar as proprietárias quanto aos atrasos. Grupos de WhatsApp foram criados entre esses trabalhadores para atualizações.
Ao serem indagadas pelos funcionários, promessas eram feitas, cumpridas em alguns casos de forma parcial e, em outros, intimidações eram feitas pelas proprietárias, como processos por difamação, boletins de ocorrência por se sentirem ameaçadas e até mesmo ofensas e xingamentos.
“Hoje ela falou que ia me pagar, pediu a minha conta e não pagou. É sempre uma desculpa, ela não paga. Tanto que tem mais de 10 pessoas, fora fornecedores que elas não pagam. É um lar que vive de aparência, mas os bastidores são bem diferentes”, relata Joana.
Em um determinado momento, ao falar que o caso seria repassado para a imprensa, a Joana recebeu uma mensagem de áudio da proprietária que dizia: “Agora tu pega e procura seus direitos. Comenta onde tu quiser, publica onde tu quiser e enfia essas mensagens tudo no teu c***” .
O Chuville Notícias teve acesso a este áudio, onde a ex-funcionária filmou o aplicativo de conversa tocando o conteúdo.
Uma outra funcionária, que será tratada como Emily, enviou prints de conversas pelo WhatsApp iniciadas em meados de junho, cobrando um suposto atraso de um ano. Após escrever que foi “esculachada” durante uma conversa telefônica pela proprietária e passar o número do PIX, recebeu parte do valor. Dois dias depois, Emily fez nova cobrança e recebeu a promessa de que, no dia seguinte, seria pago. Não ocorreu.
Após cerca de 30 dias pedindo esclarecimentos sobre quando seria pago o restante, foi questionada pela proprietária por supostas cobranças em um grupo de WhatsApp e pediu para a funcionária “ficar na tua”, pois logo ela receberia. Após vários dias de cobrança, a proprietária informou que, se quisesse levar o caso para a mídia, poderia fazê-lo, pois havia acabado de registrar um Boletim de Ocorrência (B.O).
Esclarecimentos ao sindicato
Uma outra funcionária, identificada na reportagem como Geruza e que prestou serviços em uma das unidades, afirma que desde o mês de maio (2026) não recebe o valor referente ao salário a que teria direito. A reportagem recebeu cerca de 20 áudios em que a proprietária alega como justificativa para os atrasos mensalidades de clientes não pagas, despesas com água e luz, sujeitas a corte, entre outras razões.
Geruza procurou o auxílio do Sindicato dos Trabalhadores em Turismo, Hospitalidade e de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Joinville e Região (SITRATUH), que, segundo ela, chegou a fazer contato com a proprietária. Sem acordo, a instituição a orientou a procurar um advogado.
A reportagem do Chuville Notícias fez contato telefônico com o sindicato e foi informada pelo atendimento de que a situação das duas casas de ILPIs estava sendo conduzida pela presidente Leila Rocha e que as dúvidas deveriam ser tratadas por e-mail.
O Chuville Notícias então questionou, por e-mail, se o sindicato havia recebido denúncias de trabalhadores da instituição, qual o amparo oferecido pelo sindicato e se foram feitas fiscalizações in loco ou notificações formais junto a essas empresas sobre as condições e os regimes de contratação dos cuidadores e demais funcionários. Recebemos a seguinte resposta:
O Sindicato SITRATUH informa que, por questões de sigilo e proteção dos trabalhadores, não fornecemos informações ou detalhes relacionados a denúncias, atendimentos ou procedimentos envolvendo casos e empresas específicas, pois isso poderia prejudicar muitas vezes o trabalhador que não quer se identificar. Esclarecemos que o Sindicato, sempre que recebe denúncias ou reclamações de trabalhadores da categoria, realiza a devida análise e adota as providências cabíveis dentro de suas atribuições, incluindo orientações, assistência jurídica e, quando necessário, encaminhamentos aos órgãos competentes.
Nosso compromisso é com a defesa dos direitos dos trabalhadores, sempre preservando o sigilo e a segurança das pessoas envolvidas.
Atenciosamente,
Leila Rocha
Sindicato SITRATUH Joinville e Região
Reforçamos os questionamentos, mas, dessa vez, o e-mail da presidente Leila voltou e os demais departamentos em cópia, como o jurídico da instituição, não retornaram.
Relatos sobre a estrutura das unidades e corte de água
As funcionárias também relataram outras preocupações dentro das unidades, citando supostos problemas de limpeza, conservação dos imóveis e episódios de cortes de água. Na quinta-feira, a unidade do Boa Vista teve o fornecimento suspenso pela Águas de Joinville, com contas vencidas desde junho.
Procurada pela reportagem, a proprietária do imóvel confirmou o atraso no pagamento das faturas e a interrupção do serviço, afirmando que a situação já havia ocorrido anteriormente.
Proprietárias contestam
Questionadas sobre as denúncias relacionadas às situações trabalhistas e outros pontos, as proprietárias contestam e afirmam que o método de contratação é deixado claro desde os primeiros contatos com os cuidadores e que não veem sentido em realizar uma matéria sobre o caso.
“Se elas acham que têm alguma coisa para receber, entendeu, elas têm que procurar os direitos delas. O advogado da pessoa que te procurou veio falar comigo e desistiu do caso porque ele falou que não tem lógica o que está sendo feito, porque a pessoa expôs a nossa cara nas redes sociais. O próprio advogado desistiu e eu tenho como provar”, afirma uma das proprietárias.
Posicionamento da instituição
Em nota enviada via aplicativo de mensagens, as proprietárias da instituição rebateram as alegações dos trabalhadores e defenderam a legalidade das operações do local. Confira os principais pontos apresentados pela administração:
Regime de contratação: A empresa afirmou que adota inicialmente contratos de prestação de serviços com duração de 45 dias, informados aos profissionais no ato da contratação, havendo possibilidade de prorrogação ou posterior registro em carteira. A direção citou o artigo 442-B da CLT para argumentar que a contratação de trabalhador autônomo sem vínculo empregatício é amparada pela legislação.
O estabelecimento declarou que não há ocultação das regras de trabalho e que os prestadores autônomos ingressam cientes de que não estão submetidos ao regime tradicional de emprego, cabendo a quem se sentir prejudicado recorrer às vias judiciais.
Quadro de pessoal e atendimento: A administração optou por não detalhar o número de idosos residentes nem a dimensão da equipe formalmente contratada, alegando tratar-se de informação interna prestada exclusivamente às autoridades de fiscalização, como a Vigilância Sanitária.
O Chuville também questionou a direção sobre os relatos de intimidação e ameaças dirigidos a ex-colaboradores, porém não obteve retorno. A administração tampouco informou uma previsão de data para a regularização das pendências financeiras com os ex-funcionários.
Ameaça de medidas judiciais: As proprietárias declararam que a sequência de questionamentos formulados pela reportagem foi interpretada como "constrangimento e pressão indevida", motivo pelo qual registraram um Boletim de Ocorrência. A direção informou que não responderá a novas perguntas e que adotará medidas judiciais, cíveis e criminais, caso a reportagem veicule informações que considere inverídicas ou que atinjam a imagem do estabelecimento.
O Chuville Notícias mantém o espaço aberto para manifestações formais da administração dos estabelecimentos, das entidades sindicais e dos órgãos oficiais de fiscalização trabalhista e sanitária.
- O uso de codinomes para proteção legal da fonte é amparado pela Constituição Federal de 1988, artigo V, inciso XIV.








