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EXCLUSIVO: Abrimos a caixa preta dos crimes na região central de Joinville

Furtos e roubos aos pedestres e também ao comércio têm sido recorrentes. Crimes que têm feito muitas lojas fecharem as portas ou mudarem de endereço por medo. O Chuville Notícias foi a campo investigar e pergunta: o que está acontecendo?

Foto mostrando região central da cidade, foto noturna, uma pessoa borrada passando pela calçada
Região central de Joinville tem sido alvo de crimes diários, muitos em plena luz do dia. Fotos: Eberson Teodoro

Uma loja de departamentos, na rua 9 de março, é alvo do primeiro furto do dia. Uma mulher bem vestida nem se importa com as câmeras de segurança. Coloca algumas peças dentro de uma bolsa e sai tranquilamente pela porta da frente, levantando os braços para evitar que as barras antifurto apitem ao passar. No mesmo dia, por volta das 15h, um homem aparentando 30 anos pega uma jaqueta e tenta sair da mesma loja sem passar pelo caixa. Só que desta vez ele é visto e a gerente tenta alcançá-lo na rua. Em plena 9 de março os dois ficam puxando a jaqueta, mas a força do homem acaba vencendo a luta e ele sai correndo em meio ao movimento.

Na última semana, houve tiroteio no meio da tarde por tentativa de furto a um veículo. O suspeito foi preso pela Polícia Militar e o carro nem chegou a sair da rua.

Estes são apenas alguns casos relatados a esta reportagem, mas não isolados, que têm sido comuns no Centro da maior cidade catarinense. Furtos a pessoas e comércios já viraram rotina para quem vive o dia a dia na região central. O prejuízo estimado em produtos furtados e estruturas danificadas ultrapassam a média de R$ 20 mil mensais. Algo assustador para uma cidade que, segundo a prefeitura de Joinville em novembro passado, ostentou o índice de estar entre as três mais seguras do país.

Imagens cedidas pela Polícia Militar. Todos que aparecem foram detidos.
Imagens cedidas pela Polícia Militar. Todos que aparecem foram detidos.
Imagens cedidas pela Polícia Militar. Todos que aparecem foram detidos.
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Embora haja esforço por parte do poder público e de produtores de eventos em movimentar a região central, trazendo diversas atividades, inclusive à noite, tem sido comum observar pontos comerciais fechando, dando lugar a placas de “aluga-se”, mantendo assim por um bom tempo.

Polícia Civil: Dados complexos e o desafio da população flutuante
Segundo o delegado da Polícia Civil, Marcel Araújo de Oliveira, o diagnóstico preciso da criminalidade na área central esbarra na complexidade dos sistemas integrados, que compilam dados de diferentes fontes, como a Polícia Militar, boletins registrados na própria Polícia Civil e submissões via internet. Um levantamento preliminar da instituição aponta que houve um aumento considerado nos furtos na região central de 2024 para 2025, na ordem de 20% a 30%. Já no período comparativo entre 2025 e 2026 (considerando o recorte de janeiro a junho), os números se estabilizaram em patamares muito próximos.  

Não são índices bons, não são índices agradáveis, não são índices que interessam à população de Joinville, certamente não são índices que interessam à Polícia Civil

Desabafa o delegado


A autoridade policial explica que as ocorrências englobam tanto furtos a comércios quanto crimes contra quem circula nas ruas — como pessoas que dão falta de pertences no Terminal Central. Conforme Oliveira, tratam-se majoritariamente de "crimes de ocasião", praticados no período noturno, onde os criminosos se aproveitam da escuridão e do baixo fluxo de pessoas.  O grande entrave nas investigações e na apuração de autoria individualizada reside na característica do público que comete esses delitos. 
De acordo com a análise policial, há um incremento expressivo de uma população flutuante em situação de rua, sem endereço fixo, que se abriga em becos e prédios abandonados, muitas vezes atraída pelo tráfico de drogas local. Muitos estão na cidade há pouco tempo e sequer possuem registros em Santa Catarina, o que inviabiliza a identificação por meio de imagens de câmeras, cujas resoluções raramente são ideais.  A falta de ferramentas como câmeras de reconhecimento facial — tecnologia que já está em estudo pela Prefeitura — limita a resolutividade dos casos pelo quadro de pessoal. 
O delegado cita casos emblemáticos em que criminosos destroem o telhado e a estrutura de uma lanchonete, gerando um prejuízo enorme, para furtar apenas R$ 15 do caixa, mas a polícia fica de mãos atadas para indiciar o autor ao Poder Judiciário por falta de identificação civil das imagens. 
É um problema público crônico que, como quase todos os problemas estruturais da urbanidade, explode na segurança pública
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Conclui, defendendo que a solução passa por uma gestão humanitária e eficiente dessa população vulnerável

Tem joinvilense cometendo crimes também, diz PM
Um senso quase comum motivado inclusive por algumas autoridades, como o vereador Mateus Batista (PSD), é de que o aumento das ocorrências policiais se deu pela migração de pessoas. Porém isto é refutado pelo Capitão Pietrobon, responsável pela 3ª Companhia do 8º Batalhão da Polícia Militar. Segundo ele, sempre tem joinvilense sendo detido nas ocorrências.

Tem gente de fora sim, mas tem gente daqui cometendo crimes também, tá?

Afirma o Capitão da PM


Atualmente estão sendo adotadas estratégias de cercamento digital e policiamento direcionado para mitigar os impactos na área central. Desde 2025, a corporação trabalha com um plano semestral de indicadores para redução criminal.

Uma das principais ferramentas de proximidade com o setor produtivo é o programa "Comércio Seguro", que consiste em grupos de WhatsApp restritos a lojistas de 11 bairros que integram a região central e seu entorno imediato: Centro, Bucarein, Glória, Costa e Silva, Anita Garibaldi, Santo Antônio, Bom Retiro, Saguaçu, América, Atiradores e Vila Nova.

Para garantir a segurança institucional, cada comerciante passa por uma investigação detalhada de antecedentes antes de ingressar nos grupos, que já contam com mais de 100 integrantes cada, evitando o vazamento de informações para criminosos infiltrados.

A estrutura operacional na área central dispõe de guarnições específicas para o atendimento de roubos, furtos e estelionatos, reforçada pelo Tático, pela Cavalaria para abordagens preventivas, e pelo setor de inteligência da PM, que monitora câmeras estratégicas. De acordo com o Capitão, a aplicação dessas táticas resultou na redução de 5,87% nos furtos e uma queda expressiva de 29,79% nos índices de roubos em relação ao ano passado.

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Apesar dos indicadores positivos apresentados, Pietrobon destaca dois grandes gargalos: o primeiro é a necessidade de que os imóveis abandonados recebam intervenção e fechamento físico por parte da prefeitura para não servirem de abrigo e ponto de consumo de entorpecentes. O segundo é a reincidência criminal impulsionada pela legislação penal.

O capitão salienta que, embora criminosos sejam detidos em flagrante diariamente no Centro, a Justiça dificilmente os mantém presos por crimes de furto e roubo, resultando no retorno imediato deles às ruas.

Diante do cenário, o comandante enfatiza a necessidade de uma postura proativa também por parte dos comerciantes, alertando que promessas de acabar com esses crimes não são realistas. Como medidas de autoproteção, a Polícia Militar orienta o investimento em sistemas de alarmes eficientes, câmeras de alta qualidade com maior capacidade de armazenamento de imagens, instalação de portas de rolo reforçadas e, quando viável, a contratação de segurança privada para os estabelecimentos. O acionamento imediato via telefone 190 permanece sendo o canal indispensável de socorro e registro operacional.

Fotos: Eberson Teodoro
Fotos: Eberson Teodoro
Fotos: Eberson Teodoro
Fotos: Eberson Teodoro

Guarda Municipal e GAOP: Foco na prevenção urbana

O Chuville Notícias também procurou a Guarda Municipal. Por meio de nota, a prefeitura de Joinville informou que a corporação atua em sua competência legal de proteger bens, serviços e instalações municipais, além de apoiar a fiscalização e a comunidade escolar por meio de rondas e abordagens constantes.

Para somar forças no combate à desordem urbana, a Secretaria de Proteção Civil e Segurança Pública (Seprot) coordena o Grupo de Ação de Ordem Pública (GAOP). Instituído no segundo semestre de 2024, o grupo já realizou mais de 60 operações focadas em vistorias de imóveis abandonados, abordagens e fiscalização de ferros-velhos. O GAOP reúne as forças policiais (Militar, Civil e Científica), a própria Guarda Municipal, Detrans, Defesa Civil e secretarias de áreas sociais e de infraestrutura.

A Prefeitura ressalta, no entanto, que o combate direto a crimes em estabelecimentos privados e as investigações são atribuições estritas das Polícias Militar e Civil, sendo indispensável o registro formal de Boletins de Ocorrência por parte das vítimas.

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