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Caso “Kalu” e a nova era da dúvida digital entre inteligência artificial, pessoas e marcas

Fenômeno viral levanta dúvidas sobre o que é real nas redes sociais e reacende discussão sobre IA, marketing e conexão humana.

imagem de influenciador Kalu posando com roupas feita por ele
Kalu Putik, influenciador etíope, que cria peças de roupas com materiais extraídos do ferro velho - Foto: Redes Sociais

A internet vive um momento em que a linha entre realidade e inteligência artificial se torna cada vez mais difícil de identificar. Nos últimos anos, a evolução das ferramentas de IA permitiu criar imagens, vídeos, vozes e até personagens extremamente convincentes, capazes de gerar engajamento, emoção e milhões de visualizações nas redes sociais. E foi justamente nesse cenário que o caso “Kalu” ganhou força internacionalmente.

O jovem conhecido pelo perfil @kaluputics passou a chamar atenção nas redes sociais por produzir looks utilizando materiais descartados, como sapatos velhos, plástico, tecidos rasgados e sucata. A estética visual, somada à originalidade das produções, despertou curiosidade em milhões de pessoas e abriu um debate que vai muito além da moda: afinal, Kalu é real ou criado por inteligência artificial?

A repercussão foi tão intensa que chegou até a apresentadora Eliana Michaelichen, que comentou na quinta-feira (14/05) o assunto em uma publicação no Instagram. Sem alterar suas palavras, Eliana disse: “Você já viu esse menino? Ele tem 15 anos, vive na Etiópia e cria looks tão impressionantes com sucata que deixou o mundo da moda aos seus pés”.

Ela detalha a repercussão em torno do jovem e a simplicidade de sua produção: “Tá todo mundo curioso para saber quem é Kalu Putic, um jovem cheio de talento que está causando um alvoroço nas redes sociais. Ele não tem estúdio, não tem tecidos caríssimos, tem aquilo que às vezes a gente descarta: plástico, sapatos velhos, arame, tampinha, tecidos rasgados... Mas essas coisas simples, nas mãos dele, viram looks incríveis, gente, que parecem saídos de uma passarela em Paris”. 

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Também relata as tentativas de contato das grandes marcas com o jovem e destaca a postura dele: “Dizem que as marcas foram atrás. O Instagram pediu para destacá-lo. Ele leu tudo e não respondeu nada. Com 15 anos, esse menino sabe exatamente quem é ou pelo menos parece, né? E isso é poderoso, viu? Não só o talento, que é absurdo, é a certeza que ele carrega. Essa coisa rara, sabe? De saber o próprio valor antes que o mundo venha te dizer o quanto você vale.”

Para finalizar, Eliana traz uma reflexão humanizada sobre o talento de Kalu, mas encerra com um questionamento intrigante: “Kalu me lembra que talento não precisa de permissão, não precisa de recurso, não precisa de validação e isso é muito potente. Precisa de criatividade, seja qual for a sua matéria-prima. Ele simplesmente faz e o mundo inteiro parar para olhar. É incrível! Mas tem uma questão aí... Com tanta perfeição, eu te pergunto: você acha que Kalu é real ou ele é IA?”

A dúvida levantada por Eliana resume uma das principais discussões da atualidade digital. Em uma era marcada por filtros hiper-realistas, algoritmos avançados e produção automatizada de conteúdo, a percepção humana começa a ser constantemente colocada à prova. O que antes parecia impossível de ser reproduzido artificialmente agora circula diariamente nos feeds de milhões de pessoas.

Segundo Kai-Fu Lee, especialista em inteligência artificial e autor do best-seller “Inteligência Artificial”, a tecnologia já se integrou ao cotidiano de forma tão profunda que distinguir o real do artificial se torna um desafio crescente. A observação ajuda a explicar por que conteúdos que misturam criatividade, estética impactante e mistério têm chamado tanta atenção nas plataformas digitais.

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Mais do que apenas viralizar, casos como o de Kalu mostram uma mudança importante no comportamento das pessoas diante da internet. O público já não consome apenas informação; ele participa, investiga, comenta, questiona e tenta descobrir o que existe por trás das imagens que aparecem na tela. A curiosidade coletiva virou combustível para o alcance digital.

Nesse cenário, marcas e empresas também passaram a observar com atenção esse novo comportamento. A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta tecnológica e passou a ocupar espaço estratégico dentro da comunicação, da publicidade e da construção de autoridade online. 

Hoje, empresas utilizam IA para produzir campanhas, personalizar anúncios, automatizar atendimento, prever tendências e criar experiências mais rápidas e direcionadas ao consumidor. Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de humanização dentro desse ambiente cada vez mais automatizado. A dúvida sobre a autenticidade de Kalu nos leva diretamente a uma reflexão de Philip Kotler, considerado o pai do marketing moderno, que parecia prever esse cenário.

Em entrevista à Revista EXAME, em agosto de 2024, Kotler afirmou que a grande necessidade da era da inteligência artificial é “adicionar o toque humano a esse marketing altamente técnico”. A fala reforça uma percepção cada vez mais evidente no mercado: por mais avançada que seja a tecnologia, pessoas ainda se conectam emocionalmente com autenticidade, identificação e narrativa.

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Ainda na mesma entrevista, Kotler declarou: “Os consumidores de hoje têm acesso instantâneo a uma vasta quantidade de informações ao escolher suas marcas. Eles podem pesquisar concorrentes, ler opiniões de outros consumidores ou consultar amigos em questão de segundos. Estude as influências e os processos que impactam suas escolhas. Ao desenvolver campanhas publicitárias, opte por influenciadores que apresentem uma qualidade mais humana e agradável. Participe da conversa de forma agradável. As pessoas querem se relacionar com quem é agradável e entregam informações relevantes”.

A fala evidencia uma transformação importante na lógica da comunicação contemporânea. Em meio a conteúdos gerados por inteligência artificial, imagens perfeitas e produções cada vez mais sofisticadas, o diferencial competitivo volta a ser justamente aquilo que a tecnologia ainda não consegue reproduzir integralmente: emoção genuína, identidade humana e conexão verdadeira.

O caso Kalu representa exatamente esse cruzamento entre criatividade, viralização e incerteza digital. Independentemente de ser totalmente real, parcialmente produzido por IA ou apenas impulsionado pela estética das redes sociais, o fenômeno revela como as pessoas estão reagindo a essa nova fase da internet.

Hoje, não basta apenas aparecer nas redes sociais. É preciso gerar percepção, despertar curiosidade e construir narrativas capazes de mobilizar atenção. A inteligência artificial acelerou a produção de conteúdo, mas também elevou o valor da autenticidade. Ao mesmo tempo em que a tecnologia amplia possibilidades criativas para empresas, influenciadores e marcas, ela também cria um novo desafio coletivo: aprender a distinguir o que é construção digital, o que é realidade e, principalmente, o que ainda desperta conexão humana verdadeira em meio a um ambiente cada vez mais automatizado.

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Talvez seja justamente por isso que o caso Kalu tenha provocado tamanho impacto. Porque no fundo, em meio à velocidade dos algoritmos e ao avanço da inteligência artificial, a pergunta que continua mobilizando milhões de pessoas ainda é extremamente humana: isso é real?

*Por: Charles Aparecido Pereira Gonçalves, profissional de marketing, publicitário, jornalista, empreendedor e gestor de conteúdos em Santa Catarina. Instagram: @charles__aparecido

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