ARTIGO – A fusão PP–União Brasil: um loop histórico de fisiologismo e retrocessos
Carlos Castro, Jornalista e Elton Guerra, Cientista Político. .
A política brasileira, assim como o povo, parece estar aprisionada em um loop temporal marcado por repetições de práticas autoritárias, corrupção e oportunismo. A cumplicidade entre agentes históricos e atuais revela um movimento dialético que retorna ciclicamente em uma espiral que ameaça a democracia.
Nos últimos dias foi anunciada a fusão federativa do Partido Progressista (PP) com o União Brasil (UB), acompanhada da exigência de desembarque dos quadros dessas siglas dos ministérios do governo Lula. O objetivo estratégico é claro: alinhar toda a militância parlamentar em favor da anistia a Jair Bolsonaro, prestes a ser condenado por sua participação na tentativa de golpe de Estado. O trabalho minucioso do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e a firme relatoria do ministro Alexandre de Moraes demonstram a gravidade do caso.
Apesar disso, permanece no governo a manutenção de ministros ligados ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, bem como quadros do segundo escalão dessas legendas. Trata-se de um fisiologismo que coloca o governo refém de interesses contraditórios.
A narrativa de que o presidente Lula teria “atacado” Antônio Rueda, presidente do UB, funciona como cortina de fumaça. Na realidade, o chefe do Executivo apenas exigiu definição política: os partidos que compõem sua base precisam defender pautas centrais, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Para viabilizar essa medida, o governo propõe uma tributação progressiva de até 10% sobre grandes fortunas. É um mecanismo de justiça social que atinge cerca de 140 mil contribuintes de alta renda e beneficia quase 20 milhões de trabalhadores. Contudo, a resistência das elites brasileiras mantém o país em um atraso histórico. Apenas Brasil, Letônia e Estônia ainda resistem a taxar os super-ricos.
A situação se torna ainda mais grave quando lembramos o áudio vazado em abril em que Ciro Nogueira, presidente do PP, em reunião com investidores da Faria Lima, se comprometeu a buscar “compensações” para os mais ricos, ou seja, mecanismos que reduzissem seu impacto tributário. A recente ruptura com o governo parece parte desse compromisso não declarado.
Não custa lembrar do escândalo recente envolvendo a mesma Faria Lima em denúncias que a associam a movimentações financeiras suspeitas ligadas ao PCC por meio de fundos de investimento e fintechs. Nogueira também ganhou holofotes com denúncia de ter recebido dinheiro suspeito do PCC em caixa de papelão. Que tchurminha hein.
O fio histórico do fisiologismo
Para compreender essa fusão é preciso voltar a 1945, quando nasceu a União Democrática Nacional (UDN), partido conservador e de direita criado com o objetivo de enfraquecer Getúlio Vargas, o “pai dos pobres”. Foi Vargas quem construiu o arcabouço de direitos trabalhistas e promoveu a industrialização com estatais estratégicas como Petrobras, Vale e CSN.
A UDN, por sua vez, tornou-se expressão política das elites agrárias e conservadoras. Seu maior expoente, Carlos Lacerda, junto com o partido, foi articulador do golpe de 1964 que depôs João Goulart. O regime militar então estabeleceu o bipartidarismo: de um lado a ARENA, com quadros da UDN e PSD; de outro o MDB, como oposição controlada. Entre os novos atores da ARENA estava Plínio Salgado, líder do integralismo, versão brasileira do fascismo.
A transição da ARENA para o PDS em 1979 e posteriormente para o PFL, que mais tarde se tornaria DEM e, por fim, União Brasil, mostra um contínuo esforço de reinvenção de forças conservadoras. Já o PP tem suas origens no PDS e em figuras como Paulo Maluf, símbolo do fisiologismo e da corrupção. Ambos serviram de esteio à ditadura militar. Hoje, Ciro Nogueira e Arthur Lira representam a continuidade desse legado corrupto e autoritário. Não custa lembrar que Bolsonaro, a expressão atual do extremismo fascista, é oriundo desse ninho.
O risco da “União Progressista”
A fusão entre PP e União Brasil para formar a chamada União Progressista é, portanto, a atualização de uma velha prática: o casuísmo, o toma-lá-dá-cá e o apoio a projetos autoritários. O irônico é que legendas com histórico de fisiologismo e conservadorismo usem termos como “progressista” ou “democrático” em suas siglas.
Na prática, esse bloco se alinha ao bolsonarismo para fragilizar instituições e enfraquecer a democracia, seja com orçamento secreto, emendas “pix”, tentativas de blindagem de políticos, redução da Lei da Ficha Limpa, entre outros mecanismos. O objetivo é claro: transformar o Estado em balcão de negócios e garantir a impunidade.
Infelizmente, parte do eleitorado legitima essas práticas, seja por alienação, seja pelo desejo de se beneficiar de privilégios semelhantes. O desafio está em romper esse ciclo histórico, abrir os olhos da sociedade e construir uma política que de fato sirva ao povo, e não às elites e às máfias partidárias. Basta desse loop temporal interminável.

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