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ANÁLISE: Para onde vai a esquerda? Rumos de SC dependem de decisão no PT; no Brasil Lula ganha fôlego para buscar reeleição

Por Amanda Miranda, Jornalista e Dra. em Jornalismo. .

ANÁLISE: Para onde vai a esquerda? Rumos de SC dependem de decisão no PT; no Brasil Lula ganha fôlego para buscar reeleição

A taxação de 50% nas nossas exportações ao mercado estadunidense foi uma atitude política de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, mas também ocorreu dias após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva liderar a reunião do BRICS, bloco econômico que reúne países com economias emergentes.

Tudo ocorreu, como todos nós sabemos e vimos, com um sujeito reivindicando o atentado para si: Eduardo Bolsonaro (em parceria com o neto de ditador Paulo Figueiredo) fez nota e gravou vídeo pedindo novas sanções – desta vez diretas a Alexandre de Moraes – e deu até prazo para autoridades brasileiras capitularem.

É tudo tão vexatório, que aceitar este cidadão de volta ao país sem qualquer tipo de punição será um atestado de fragilidade das nossas leis de proteção à soberania. Um brasileiro provocou o sistema para que ele se voltasse contra o seu país, baseado em mentiras e desinformação.

Por outro lado, há analistas vendo no gesto da família Bolsonaro e na radicalização de Trump uma brecha a mais para Lula no seu projeto de reeleição: mais uma vez a família Bolsonaro age deliberadamente em causa própria, deixando os conservadores mais e menos radicais reféns da sua loucura.

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Se houve alguma vitória para os anti-patriotas neste episódio foi conseguirem arrefecer os debates sobre justiça tributária que tomaram conta das redes nos últimos dias, deixando claro que há um projeto de país em curso em oposição àqueles que têm como única bandeira se livrarem de uma condenação por golpe de estado.

Vem de barra de rolagem e bora seguir o papo, pensando nos cenários eleitorais que começam a se descortinar em todo esse contexto.

1 – Vi no Jornal

Uma pauta unificada – Desde que Lula assumiu seu terceiro mandato, críticos apontavam suas dificuldades, no campo da comunicação e da articulação política, de consolidar uma agenda que unificasse os interesses do país. O fim da escala 6×1 foi um sopro, um primeiro esforço de acenar para a classe trabalhadora, mas finalmente a pauta da justiça tributária, que vem sendo enfrentada pelo ministro Fernando Haddad em falas públicas há bastante tempo, ganhou fôlego no debate público.

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A mobilização popular deixou o tema na boca do povo por dias, escancarando como nosso país afaga os cofres dos milionários e penaliza quem está muito abaixo deles na pirâmide social.

Milionário consciente – Até o milionário Walter Salles, de uma das famílias mais ricas do país, foi a público defender o tema. 63% da riqueza do país está nas mãos de apenas 1% da população, o que revela que estas distorções não são retóricas, há dados que comprovam que a concentração de renda e a desigualdade precisam de correção.

Há meses o ministro da Fazenda já vem usando uma imagem clara para apresentar o problema a população: a do trabalhador que paga 10% de imposto em contraposição ao milionário cujo imposto de renda médio fica em 2,5%.

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“Existem 141 mil pessoas no Brasil que ganham mais do que R$ 1 milhão por ano e pagam um imposto de renda médio de 2,5%. Eu te pergunto: é justo um milionário pagar 2,5% de imposto de renda e a professora de escola pública, policial militar, o bombeiro, a enfermeira pagar 10% do salário de imposto de renda? Não é mais justo isentar quem ganha pouco e cobrar de quem não paga nada, ou quase nada hoje?” (leia a entrevista completa aqui).

Caminho inteligente – A adesão popular ao tema era o que faltava para o governo Lula ter um mote para se preparar para 2026 ao invés de ficar na desconfortável posição de só reagir às investidas dos bolsonaristas e do centrão.

Lula lançou a proposta de isenção de Imposto de Renda para cidadãos que recebem até R$ 5 mil em 2024, mas o assunto não chegou a ganhar fôlego no debate público e sempre foi alvo de tensões no parlamento. A mobilização das redes é um engate na pauta e sinaliza ao Congresso inimigo do povo de que há espaço para pressão às vésperas do ano eleitoral.

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Parece que o jogo virou, não é mesmo?

Ao mesmo tempo, a pauta também fortalece a liderança de Haddad, considerado um dos possíveis sucessores de Lula no PT: é ele quem está conduzindo as discussões, que agora é replicada reiteradamente por outros ministros, inclusive por Simone Tebet, ministra de Lula que disputou o pleito em 2022.

2 – Deu ruim

Entreguista – Paralelamente ao novo fôlego do governo em busca de um projeto para 2026, os adversários começam a cometer pecados imperdoáveis. No final da noite de quarta-feira, após horas em silêncio, Tarcísio de Freitas, o preferido da Farinha Faria Lima, se manifestou culpando Lula pelo tarifaço de Trump orquestrado a partir de um conluio criminoso de Eduardo Bolsonaro.

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São dois dos possíveis “herdeiros” do espólio eleitoral do inelegível Bolsonaro atacando empresários com negócios lucrativos que poderiam inclusive ajudar a financiar suas campanhas (como sabemos a legislação não permite que CNPJ faça doação a campanhas, mas essa gente não se importa com as leis, não é mesmo?).

São, também, duas figuras públicas colocando a Constituição do Brasil na bandeja para um agente externo que sequer escreve e se comunica no nosso idioma. Objetivamente, quando culpam Lula pelo tarifaço, eles pedem que o país seja entregue para controle e domínio dos Estados Unidos. Ninguém com bom senso e sem pitadas de radicalização compra esse discurso.

Os jornalões, que vinham fazendo gestos de apoio editorial a Tarcísio, foram para cima do amigo, que nem ligou e ainda foi a Brasília num date com Jair Bolsonaro. Esse gesto é claro: não há moderação possível para o atual governador de São Paulo.

Enquanto isso, em SC… – Segundo dados da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Estados Unidos é o principal mercado para o qual o Estado exporta. Isso coloca Jorginho Mello, que adora vender a imagem de um grande incentivador da atividade industrial, numa situação bastante tensa, do ponto de vista econômica. Se o governador não se pronunciar sobre a taxação retaliadora de Trump, não só vai aderir ao entreguismo como vai soltar as mãos do poder econômico local.

Diferentemente de Tarcísio, que é pré-candidato a presidente e precisa de Bolsonaro para respirar, Jorginho é um governador em busca de reeleição, com um adversário igualmente extremista de olho nos seus passos, o prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD). Mas soltar a mão da indústria, agora, é gesto perigoso que também abre espaço para a oposição.

3 – De olho neles

Efeitos locais – Com o fôlego adquirido pelo governo Lula lá em Brasília e uma eleição interna do PT com suas primeiras repercussões no Estado, a esquerda ganha tempo para se organizar, articular e reagir. Do ponto de vista institucional, temos apenas dois deputados federais neste campo, Pedro Uczai e Ana Paula Lima, e cinco estaduais, Fabiano da Luz, Luciane Carminatti, Pedro Baldissera e Neodi Saretta, do PT, e Marquito, do PSOL.

Destes, dois estão íntima e diretamente envolvidos com um passo importante para o cenário eleitoral de 2026: Luciane Carminatti e Fabiano da Luz vão disputar o segundo turno para a definição da presidência estadual do partido. Enquanto Fabiano é o candidato de Décio Lima, candidato ao governo que foi ao segundo turno em 2022, Luciane representaria uma espécie de renovação na liderança do partido.

Esse passo é importante pois é o diretório estadual quem vai construir alianças e definir distribuição de verbas do fundo partidário para 2026. Embora tenha tido o sucesso da ida ao segundo turno há quatro anos, as lideranças do PT acumulam desgastes e disputas internas que acabam deixando o cenário incerto.

A disputa entre Fabiano da Luz e Luciane Carminatti foi voto a voto, o que surpreendeu o grupo político de Décio Lima. A vitória, entretanto, ficou com o deputado. O segundo turno do “PED”, como é chamado o processo de eleição direta do PT, ocorre dia 27 de julho.

O que está em jogo – Não é só a condução do partido que está em jogo na disputa, mas a articulação do campo progressista. Nenhum outro partido de esquerda vai ter recursos como o PT para 2026 – e é esperado, conforme o resultado obtido em 2022 nas urnas, que o diretório nacional olhe para cá vislumbrando algum potencial.

A rinha bolsonarista entre Jorginho Mello e João Rodrigues promete dividir o eleitorado, como aconteceu com as candidaturas de Carlos Moisés e Esperidião Amin, que também representavam o eleitor conservador em 2022. Se organizar bem direitinho, dá para reunir interesses em torno de nomes que possam atrair o eleitor. Dá, também, para montar uma dupla boa ao Senado para enfrentar Carlos Bolsonaro, o forasteiro. E para firmar uma nominata que eleja mais deputados federais e estaduais, pois é evidente que o campo progressista pode ter mais força tanto na Assembleia quanto na Câmara.

Quem está em evidência – Esta semana perguntei aos meus amigos do perfil do Instagram quem eles veem como lideranças importantes para 2026. Décio Lima, claro, foi muito citado, como também foram todos os deputados que já têm mandato instituído. Vereadores eleitos em 2024, como Leonel Camasão (PSOL), Carla Ayres (PT), Giovana Mondardo (PC doB), Jean Volpato (PT) e Eduardo Zanatta (PT) também apareceram na minha consulta livre e nada científica.

Por enquanto, só uma liderança se colocou em campo e pronto para jogo para 2026: o vereador de Florianópolis Afrânio Broppe (PSOL) foi lançado como pré-candidato ao governo pelo partido às vésperas das eleições internas do PT. É possível, como aconteceu na Capital em 2024, que os partidos acabem rachados e saíam sem unidade, dividindo seus eleitores? É raro, mas acontece muito Acho pouco provável, mas é preciso que as questões internas do PT se resolvam e que as negociações levem em conta as limitações eleitorais de cada um e o desempenho nas urnas nos últimos pleitos. Fácil não é, mas tem jogo para jogar.

Nesta disputa, penso que vai levar a melhor quem souber se comunicar bem, não só com as bases, mas também nas redes. Não gosto de políticos com perfil de influencers, mas é importante que os espaços de interação digital dos candidatos seja estratégica e profissional. Os nomes citados na minha consulta têm redes ativas e eficientes, não é à toa que são lembrados…

4 – Craque do jogo

Vocês sabem que meu negócio é entrevistar dados e fontes documentais, mas em nome da democracia procurei as assessorias de Fabiano da Luz e Luciane Carminatti e mandei um questionário para tentar antever mais cenários para a esquerda em 2026. Abaixo, compartilho a íntegra das respostas de Fabiano da Luz. O espaço segue aberto para Carminatti e será atualizado na versão do site caso envie as respostas.

1 – O que esperar da esquerda em SC para 2026?

Fabiano da Luz: Primeiramente, o papel da esquerda em 2026 é continuar construindo uma sociedade mais justa e democrática, começando por combater as mentiras que se espalham pela Internet e criam um mundo fantasioso alimentado pela extrema-direita. Acredito que grande parte dos partidos progressistas percebeu que deve se comunicar melhor não somente com o filiado, mas com quem está em casa. E isso passa por perceber as mudanças da sociedade, das relações de trabalho. Hoje não adianta mais tentarmos vencer no “grito”, mas dialogar, informar da melhor maneira possível. Temos que nos comunicar com essa nova base, com os movimentos sociais e com os sindicatos, que foram constantemente atacados nos últimos anos. Esse será o papel da esquerda no próximo ano.

2 – Como você observa o estado diante da polarização que toma conta do Brasil e do mundo?

Nas agendas pela cidade, observo que é muito mais relevante para as pessoas a presença do poder público na sua comunidade, cidade ou rua mais do que qualquer polarização entre direita e esquerda. Infelizmente, aqui no Estado temos um governador que só sabe polarizar com medo das eleições do próximo ano, enquanto temos um desmanche em políticas públicas, como na Assistência Social e Educação. Agora mesmo tivemos o escândalo da Universidade Gratuita. Claro que a polarização ainda será forte nas eleições do ano que vem, mas temos que mostrar que política pública não se faz com polarização.

3 – É possível construir uma frente com partidos de centro no estado?

Temos, primeiro, que construir uma frente com os partidos progressistas, que hoje não há em Santa Catarina. No meu ponto de vista, a falta de oposição ao governo Jorginho Mello é uma prova disso. Precisamos fortalecer a esquerda primeiro e, lá na frente, dialogar com outros partidos.

4 – O PT já tem pré-candidatos ao governo?

Naturalmente o pré-candidato ao governo de Santa Catarina é o atual presidente do Sebrae, Décio Lima, que na eleição passada foi para um segundo turno histórico.

5 – Como o diretório nacional, com o novo presidente já eleito, olha para SC?

O Edinho tem o mesmo pensamento que nós, que é se aproximar dos movimentos sociais, dos sindicatos, recuperar a força que sempre tivemos com a base e que ajudaram a eleger o presidente Lula. Santa Catarina foi um dos poucos estados com o PT no segundo turno e isso mostra que temos um legado importante aqui. E isso o governo Lula já tem demonstrado com os investimentos que estão sendo feitos. A ideia do presidente Edinho aqui é fortalecer ainda mais o PT aqui no Estado.

5 – Considerações finais

Hoje é quinta-feira e, no momento em que fechei essa cartinha, 19h27, Jorginho Mello ainda não havia se pronunciado sobre o Custo Bolsonaro, diferentemente de Hugo Motta e Davi Alcolumbre, que fizeram uma nota horrorosa e entreguista, sem sal e inimiga do povo.

Embora a gente ainda esteja longe de 2026, as cartas estão cada vez mais na mesa, lá e cá. Não podemos negar que o bolsonarismo mais extremista, aquele antivax, contra direitos humanos, conspiracionista e olavista, ainda tenha um potencial eleitoral forte.

Mas nós temos a faca e o queijo na mão para mostrar para a sociedade que não foi picada por essa cobra as diferenças de projeto que estão em jogo. Após mais de três décadas de vida pública, Jair Bolsonaro ainda usa o poder para beneficiar a si e a sua família. Por outro lado, de cá nós tentamos argumentar que anistia não é projeto e que fugitivo não é exilado. Unificar o discurso em torno de pautas de interesse público parece um bom primeiro passo para racionalizar o processo.

Deixemos as águas rolarem!

Foto: Jéssica Michels
Amanda Miranda
Jornalista e Dra. em Jornalismo 🙋🏽‍♀️
Entrevisto documentos e dados para combater o extremismo bolsonarista 📈
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