Afastamento de diretora da Escola GAG em Joinville gera polêmica e divide opiniões
Fabiana Feltrin deixou o cargo após denúncias de assédio moral; enquanto apoiadores cobram transparência do Estado, relatos apontam clima de intimidação e perseguição na comunidade escolar.
Uma polêmica vem chamando a atenção nas últimas semanas no cotidiano da Escola de Educação Básica Professor Gustavo Augusto Gonzaga, conhecida como GAG, no bairro Saguaçu, em Joinville. A diretora Fabiana Feltrin foi afastada do cargo, que ocupava há mais de dois anos, sob acusações de supostas condutas de assédio moral contra alunos e alguns professores.
A profissional nega as acusações e conta com o apoio de parte dos pais e de outros professores da instituição. Tanto a diretora quanto a Associação de Pais e Professores da escola cobram da Coordenadoria Regional de Educação maiores esclarecimentos sobre o motivo do afastamento, já que, segundo eles, não foram apresentadas as justificativas para a decisão.
Pais foram até a frente da escola com faixas em apoio a Fabiana Feltrin e criaram um perfil no Instagram intitulado "Todos por Fabiana", como forma de demonstrar apoio à ex-diretora.
Nos comentários do perfil, é possível encontrar mensagens de apoio a Feltrin, inclusive de parlamentares, como os vereadores Instrutor Lucas e Cleiton Profeta, este último cassado por quebra de decoro parlamentar. Na conta, também há questionamentos sobre a atuação da direção, além de relatos de supostas condutas de assédio moral e perseguições.



Pais e professores a favor
O Chuville foi procurado por um dos pais que apoiam a diretora, com o intuito de cobrar órgãos e autoridades competentes sobre o motivo do afastamento "repentino" da diretora do cargo. Os nomes das pessoas envolvidas serão preservados durante o transcorrer da reportagem.
Segundo uma mãe de dois alunos da escola, Fabiana realizava um trabalho excelente junto aos estudantes e ao corpo docente, com exceção de alguns professores que, segundo seu depoimento, eram cobrados por faltas e pela apresentação de diários que não haviam sido entregues.
"A maioria do corpo docente discorda, assim como os pais, dessa exoneração repentina. Poucos professores concordam, e são justamente aqueles que não apresentavam seus diários e faltam constantemente", relata a mãe em seu depoimento.

Para ela, os elogios e manifestações de apoio na conta do Instagram são indícios de que o trabalho da ex-diretora era bem avaliado. Ela também reitera que alguns comentários com posicionamentos contrários e relatos de condutas questionáveis seriam orquestrados por poucas pessoas que não aceitavam a gestão de Feltrin.
Ela também acredita que possa haver alguma motivação política, embora não deixe claro qual seria, e que a Coordenadoria Regional de Educação (CRE) esteja sofrendo algum tipo de pressão pelo afastamento.
A Associação de Pais e Professores da escola protocolou um ofício junto ao CRE, alegando que o afastamento traria graves impactos negativos à comunidade escolar e danos irreversíveis à educação, além de ter ocorrido no meio do ano letivo.
"Como que, depois de excelentes gestões em escolas referência, eles a exoneram dias depois? O que os pais buscam é transparência do CRE, que não fala sobre os motivos da exoneração da Fabiana e também não fez nada a respeito dos relatórios apresentados sobre a conduta de alguns professores", declara a mãe, uma das representantes do apoio à diretora.
Os relatórios mencionados, que teriam sido enviados pela diretora ao CRE, apontam supostas condutas e práticas em desacordo com a função exercida por alguns professores, além de reclamações sobre supostos casos de assédio desses profissionais contra a antiga gestora.
Para os apoiadores de Fabiana Feltrin, é a diretora que sofre assédio e injustiça, e veem sua saída como injusta.
Autoritarismo e intimidações
O perfil de apoio à diretora não reúne apenas elogios. Há também quem apresente versões contrárias, desde professores até alunos. Entramos em contato com uma pessoa que representa um dos docentes. Segundo seu depoimento, desde a chegada da diretora à escola, instaurou-se um ambiente de perseguição, tanto a professores quanto a alunos.
Professores que não concordavam com determinados métodos passaram a ser vistos como desagregadores. Segundo esse depoimento, alguns eram expostos em reuniões e ameaçados com supostas influências que a diretora teria junto a políticos e integrantes da Secretaria da Educação.
Um processo por assédio moral e condutas desrespeitosas foi aberto por uma das professoras da instituição. De acordo com o documento ao qual o Chuville teve acesso, a docente vem sendo vítima dessas condutas desde o início da gestão de Fabiana Feltrin.
Um dos pontos destacados no processo seria a segregação de professores que possuem posicionamentos políticos e ideológicos diferentes dos da diretora. Segundo a denúncia, durante reuniões pedagógicas, alguns docentes recebiam observações pejorativas diante de outros funcionários da escola.
Ainda no perfil de apoio da diretora, nas redes sociais, há mensagens de alunos que afirmam ter sido perseguidos por ela e por alguns professores que apoiavam sua conduta. Também há pais que corroboram esses relatos, afirmando que seus filhos foram constantemente ofendidos com frases como "você não será nada na vida" ou "ainda vou te ver na vala, pois você é um marginal", entre outras ofensas.
Boletim de ocorrência contra aluno de 15 anos
Uma mãe relata que seu filho foi alvo de intimidação da diretora, com auxílio de um policial militar. Segundo seu depoimento, o estudante escreveu seu nome em uma carteira escolar, foi repreendido, assumiu a responsabilidade e se ofereceu para limpá-la. Após o ocorrido, a diretora teria chamado o aluno à sala, junto com sua assessora e, diante de dois policiais, o menor foi interrogado, inclusive com levantamento de informações sobre possíveis passagens policiais.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece proteção integral aos menores. Submeter qualquer estudante menor de idade a coação, humilhação, ameaça ou constrangimento configura crime. A polícia não pode isolar e interrogar um aluno dentro da escola sem a presença dos pais, responsáveis legais ou de um representante do Conselho Tutelar.
Posteriormente, um oficial de Justiça entregou uma intimação na residência do menor sobre o caso. No intuito de entender o motivo de a situação ter tomado tal proporção, a mãe relata que a diretora teria dito que, naquele dia, o menor poderia ter saído de camburão e que, com marginal, o tratamento seria esse.
A mãe afirma que levou a situação ao CRE e ao Núcleo de Educação, Prevenção, Atenção e Atendimento às Violências na Escola (NEPRE), que passaram a conduzir o caso. Ainda em seu relato, o menor teria sido exposto em outro momento pela diretora para toda a escola em relação ao episódio, com desdobramentos que chegaram ao Ministério Público e foram posteriormente encerrados.
Em outra ocasião, o mesmo aluno esteve envolvido em um desentendimento com colegas e, desta vez, o Conselho Tutelar foi acionado. A mãe, indignada com a situação e ao suspeitar que o filho sofria perseguição, foi até a escola e teve um bate-boca com a diretora, proferindo xingamentos. Ela reconhece o erro, mas entende a atitude como uma reação de mãe indignada.
A mãe também afirma que outros alunos passaram por situações semelhantes de exposição, inclusive envolvendo professores com aval da diretora. O assunto também foi levado à secretária de Estado da Educação, Luciane Ceretta, que passou a acompanhar as denúncias e condutas atribuídas à diretora.
A diretora também é acusada de acobertar condutas de depreciação contra alunos por parte de professores que a apoiam. Segundo relatos e documentos apresentados à reportagem, alguns docentes seguiriam os mesmos padrões de assédio, exposição, constrangimento e uso de palavras humilhantes contra adolescentes.
Diretora afirma ser referência por onde passou
A diretora Fabiana Feltrin se defende e contesta todas as acusações. Ela entende que, após acabar com privilégios de alguns professores e exigir o cumprimento de processos educacionais, passou a ser vista como opressora e assediadora por alguns profissionais que teriam se sentido incomodados.
Em 27 anos na educação, sendo 15 deles como gestora, Fabiana afirma ter construído uma trajetória de respeito e ser referência por onde passou. Segundo ela, condutas de desrespeito com professores e com a escola precisam ser acompanhadas com firmeza, mas sempre dentro dos preceitos educacionais e devidamente documentadas.
A diretora também afirma possuir uma liminar que a isenta da alegação de assédio. No documento apresentado à reportagem, a magistrada Anna Finke Suszek indefere o pedido referente ao processo contra Fabiana. Na decisão, a juíza afirma que as evidências apresentadas pela professora possuem elevado teor de subjetividade e não demonstram abuso ou excesso por parte da gestora.
A liminar ainda aponta que a autora teria tratado a diretora de forma hostil ao apresentar exigências excessivas para a realização de uma conversa: "como se a gestora precisasse marcar uma reunião na Coordenadoria Regional de Educação, com pauta antecipada, para exercer seu poder de direção", diz a magistrada no documento.
Segundo a juíza, é comum que subordinados desenvolvam antipatia pela gestão diante de mudanças nos métodos de trabalho ou da correção de práticas eventualmente inadequadas desses profissionais.
A liminar não extingue o processo, que continua em andamento.
Sobre as acusações de humilhação aos alunos, Fabiana afirma que jamais proferiu as falas apontadas pelos pais na reportagem. A diretora relatou ter passado por situações impactantes durante sua atuação em uma escola no Jardim Paraíso, onde encontrou alunos em valas. Segundo ela, alguma fala nesse sentido pode ter sido interpretada de forma equivocada.
Fabiana afirma se sentir injustiçada diante do que vem enfrentando em sua profissão. Ela diz carregar o legado dos pais e destaca que sempre foi respeitada nas escolas em que atuou. A diretora mantém a esperança de retornar ao Gustavo Augusto Gonzaga para dar continuidade ao trabalho.
Indicação política para assumir escola
Uma das alegações apresentadas por professores que se dizem prejudicados pela diretora Fabiana Feltrin é o fato de ela ter assumido a escola sem passar pelo crivo da comunidade escolar, formada por professores, especialistas, servidores administrativos, pais e alunos que participam do processo de escolha da gestão. Segundo esses profissionais, houve uma indicação com motivação política.
Questionada sobre o assunto, Fabiana afirma ter elaborado um Plano de Gestão Escolar (PGE) enquanto atuava como professora da Escola Nagib Zattar, no Jardim Paraíso. No entanto, por falta de quórum, ela não assumiu o cargo e continuou dando aulas.
Posteriormente, por indicação do Rancho Timbé, por meio do deputado Sargento Lima, segundo a diretora, foi dada continuidade ao processo para assumir a gestão da Escola Gustavo Augusto Gonzaga.
Posição do Sindicato e da Secretaria da Educação
O Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado de Santa Catarina (SINTE-Joinville) afirma acompanhar a situação envolvendo o GAG e destaca que o caso também evidencia discussões sobre a gestão democrática nas escolas estaduais.
Segundo o sindicato, o atual modelo adotado pelo Governo do Estado apresenta limitações, já que a maioria dos diretores e assessores escolares não foi escolhida diretamente pela comunidade escolar, mas indicada pela administração.
Uma vez ocupado o cargo por indicação, a permanência do gestor fica sujeita à decisão da administração responsável pela nomeação, podendo ocorrer exoneração e substituição a qualquer momento, o que fragiliza a autonomia da gestão escolar.
A entidade defende maior participação de professores, estudantes, pais e responsáveis na escolha dos gestores.
Sobre as denúncias divulgadas, o SINTE ressaltou que casos de assédio moral ou qualquer violação de direitos devem ser investigados pelas instâncias responsáveis, que precisam analisar as evidências e garantir o contraditório e a ampla defesa a todos os envolvidos.
Já a Secretaria de Estado da Educação (SED) informa que a substituição da diretora da EEB Professor Gustavo Augusto Gonzaga, em Joinville, foi uma decisão administrativa tomada com responsabilidade e baseada em relatos e manifestações apresentados pela própria comunidade escolar à Coordenadoria Regional de Educação de Joinville.
Segundo o órgão, a situação vinha sendo acompanhada pela equipe da CRE, que recebeu registros e denúncias de pais, responsáveis e servidores da escola sobre a conduta da antiga gestora. Após análise criteriosa do caso, entendeu-se a necessidade de mudança na gestão da unidade escolar, sempre com o objetivo de garantir um ambiente adequado para estudantes, profissionais da educação e famílias.
Enquanto a diretora se sente injustiçada e vê apoio nas redes sociais, parte dos professores e alunos sentem alívio com sua saída.




