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A cidade da chuva e 14 anos de Plano de Drenagem que nunca saiu do papel

Nesta reportagem especial, vamos mostrar porquê o joinvilense ainda sofre com enchentes e prejuízos cada vez que o céu fecha. .

A cidade da chuva e 14 anos de Plano de Drenagem que nunca saiu do papel

Ontem (24), os joinvilenses mais uma vez sofreram com as cheias, sobretudo os moradores da zona sul. Bastaram dois dias de chuva intensa, somados à maré alta, para diversas ruas ficarem tomadas pelas águas. Prejuízos foram contabilizados, pessoas chegaram atrasadas em seus trabalhos e o trânsito, mais uma vez trancou.

Até aí mais um cenário de uma cidade chuvosa, que até emprestou o apelido a este veículo de comunicação: “Chuville”. Mas para entender esta história, é preciso saber que decisões políticas e econômicas influenciam esta situação há 14 anos.

​A situação coloca em evidência um conflito que envolve três administrações municipais e questiona o que realmente aconteceu com o Plano Diretor de Drenagem Urbana (PDDU), elaborado em 2011 pela administração do ex-prefeito Carlito Merss (PT). Merss afirmou ainda nesta segunda-feira, em suas redes sociais, que deixou um planejamento completo durante a transição de seu governo, ao final de 2012.

Contudo, esse plano andou quase nada, como você vê agora nesta reportagem.

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O planejamento que não decolou

Em seu governo, que foi de 2009 a 2012, Carlito Merss investiu pesadamente em diagnóstico. O Plano Diretor de Drenagem Urbana, concluído em 2011, custou mais de R$ 3 milhões e representou um estudo amplo e técnico da bacia hidrográfica do Rio Cachoeira. O documento identificava 20 obras de macrodrenagem necessárias, sendo 5 delas no próprio Rio Cachoeira, e estabelecia um ranking de prioridades baseado em custos, benefícios ambientais e impactos sociais.​

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A obra indicada como prioritária era clara: a ampliação da capacidade de escoamento do rio Cachoeira por meio de dragagem, contenções laterais, retificações de canais e substituições de pontes. Um leito de 14 quilômetros em boa parte na área urbana que deveria ter sido atacado logo após 2012.​

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Os oito anos de Udo Döhler: o pouco investido gerou prejuízo

Udo Döhler (MDB) assumiu a prefeitura em janeiro de 2013, sendo eleito com 54,65% dos votos. Durante seus dois mandatos (2013-2020), a administração manteve-se praticamente inerte em relação ao PDDU. Enquanto isso, a cidade continuava a sofrer com alagamentos recorrentes.​

Em 12 anos de implementação do plano (2011-2023), apenas uma obra foi concluída: a macrodrenagem do rio Morro Alto, concluída em 2013, no primeiro ano do governo Döhler. Uma única entre 20 obras. A segunda intervenção – e a mais polêmica no rio Mathias – foi iniciada em 2014, mas deu tudo errado. Os trabalhos pararam em 2020, com aproximadamente 70% da obra realizada, sem qualquer perspectiva de continuação.​

A tão esperada galeria, com direito a comportas e bombas d’água, acabou deixando as principais ruas do Centro abertas, destruiu o comércio local, deixou prejuízos e ações judiciais. A contenção das cheias continua sendo um sonho distante para o joinvilense.

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Adriano Silva: ações pontuais diante de desafios monumentais

O atual prefeito Adriano Silva (Novo), eleito em 2020 e reeleito em 2024 com esmagadora votação de 78,69% dos votos, iniciou sua primeira gestão prometendo captar recursos para obras estruturantes de mitigação de cheias.​

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Questionado por esta reportagem, ele defende que sua administração tem mantido um programa permanente de limpeza de drenagem desde 2021. Conforme dados enviados pela assessoria de imprensa da prefeitura, até este mês a Unidade de Drenagem executou limpeza de 190 quilômetros de rios, córregos e valas, removendo 988 caminhões de resíduos. A Unidade de Limpeza Urbana limpou aproximadamente 85 mil bocas de lobo até agosto.​

“Pelo programa, todos os rios e valas dentro da área urbana consolidada passam por limpeza, pelo menos, uma vez por ano”, declara Silva. “No médio e longo prazo, há três projetos de macrodrenagem em desenvolvimento: a macrodrenagem na sub-bacia do rio Jaguarão, a macrodrenagem na sub-bacia do rio Bucarein e a macrodrenagem da sub-bacia do rio Itaum-Açu. Além disso, estamos atualizando o Plano Diretor de Drenagem do Cachoeira.”

Entretanto, essas ações, embora importantes para prevenção, constituem apenas a ponta do iceberg. As três macrodrenagens mencionadas por Silva continuam em fase de desenvolvimento, sem cronogramas definidos para execução real das obras.

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O abismo financeiro: bilhões de reais em planejamento

Os números revelam a verdadeira dimensão do problema. O custo total estimado para implementar todas as macrodrenagens da bacia do Rio Cachoeira passa de R$ 3 bilhões em valores atualizados. Apenas as obras dos rios Jaguarão e Bucarein somavam, em 2023, cerca de R$ 1,2 bilhão, sendo R$ 733 milhões para o Jaguarão (mais R$ 45 milhões em desapropriações) e R$ 435 milhões para o Bucarein (mais R$ 45 milhões em desapropriações).​

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Os projetos executivos para o Jaguarão e Bucarein chegaram a ser entregues em junho do ano passado. De acordo com os cronogramas apresentados na Câmara de Vereadores, a expectativa era de que essas obras fossem licitadas no ano que vem.​

Para os rios Itaum e Itaum-mirim, um novo contrato de consultoria foi assinado em 2023 por R$ 3,9 milhões, chegando a ter um prazo de 18 meses. Porém em agosto do ano passado, a gestão Adriano Silva prorrogou este contrato para 2026. O custo da macrodrenagem desses rios ultrapassa R$ 300 milhões.

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A obra prioritária que permanece no limbo: rio Cachoeira

A situação mais preocupante refere-se ao rio Cachoeira, identificado há 14 anos como obra prioritária. O rio, com 14 quilômetros de leito em grande parte encoberto (confinado) na área urbana, necessita urgentemente de aumento de capacidade de escoamento.​

O prefeito Adriano Silva reconhece a necessidade de dragagem do Cachoeira para reduzir a profundidade de sedimentos em pelo menos dois metros. Contudo, o projeto enfrenta um obstáculo aparentemente intransponível: a indefinição do “bota-fora”, local para onde serão levados os sedimentos. Uma análise preliminar da Secretaria de Infraestrutura calculou a necessidade de remoção de 500 mil metros cúbicos de sedimentos, um volume que exige definição urgente de destinação.​

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Além do Mathias: projetos esquecidos

A paralização da macrodrenagem do rio Mathias é emblemática do fracasso institucional. Iniciada em 2014 com promessa de conclusão em 2016, a obra acumula prazos prorrogados repetidamente. O contrato foi sucessivamente estendido (para 2019, 2021, 2023), mas trabalhos pararam em 2020 com apenas 70% da execução.​

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Recursos de R$ 26,4 milhões foram repassados a fundo perdido pelo governo federal, permitindo algum progresso. Porém, o que se viu na prática foi o canteiro de obras abandonado por meses, além de ações judiciais e CPI, que acabaram inocentando a prefeitura de Joinville. O Tribunal de Contas do Estado e Ministério Público Federal apontaram 10 pessoas responsáveis, incluindo a empreiteira Motta Junior, que estava tocando a obra, que não há prazo para ser retomada.

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​A realidade das bocas de lobo entupidas

Quem anda pelas ruas de Joinville sabe que não é difícil encontrar bocas de lobo entupidas, onde motoristas precisam ir para a faixa da contramão, evitando colocar o veículo na água ou molhar algum pedestre. Embora o prefeito Adriano afirme que 85 mil bocas de lobo foram limpas até agosto deste ano, questionamentos surgem sobre a efetividade dessa manutenção diante da persistência de alagamentos.

Um dos casos mais emblemáticos é na rua Jacupiranga, bairro Aventureiro. Há meses uma boca de lobo não escoa devidamente a água da chuva, próximo à calçada da Escola Municipal Senador Carlos Gomes de Oliveira e a um ponto de ônibus. Basta uma chuva para metade da rua ser tomada pela água.

A cidade que foi construída sobre mangues e rios sem um planejamento devido, agora corre contra o tempo, mas às vezes andando em círculos.

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